27 de outubro de 2016

O barbante


Zorba abanou a cabeça:
- Não, você não é livre. A corda que o amarra é um pouco mais comprida que a dos outros. É tudo. Você, patrão, tem um barbante comprido, você vai, você vem, pensa que é livre, mas não consegue cortar o barbante. E quando a gente não corta o barbante...
- Vou cortá-lo um dia! - disse em tom de desafio, pois as palavras de Zorba me haviam tocado numa chaga aberta e me fizeram mal.
- É difícil, patrão, muito difícil. Para isso a gente precisa de um bocadinho de loucura; de loucura, está ouvindo? Arriscar tudo! Mas você tem uma cabeça sólida, que vai levar a melhor. O cérebro é um vendeiro, tem as suas contas: paguei tanto, tenho tanto em caixa, aqui estão os lucros, aqui as perdas! É um pequeno lojista prudente; não põe tudo em jogo, guarda sempre umas reservas. Ele não corta o barbante, não. Segura-o solidamente na mão, o velhaco. Se o barbante escapa, o coitado está perdido, perdidinho! Mas se você não cortar o barbante, me diga, que sabor pode ter a vida? Um gosto de camomila, de insossa camomila! Não é o gosto do rum, que faz a gente ver o mundo virado do avesso!
 
Nikos Kazantzakis

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