Esses tapuias não comem a carne de nenhum inimigo, antes são inimigos capitais daqueles que a costumam comer, e os perseguem com mortal ódio. Porém, pelo contrário, têm outro rito muito mais feio e diabólico, contra a natureza, e digno de maior espanto. E é que, quando algum chega a estar doente de maneira que se desconfie de sua vida, seu pai ou mãe, irmãos ou irmãs, ou quaisquer outros parentes mais chegados, o acabam de matar com suas próprias mãos, havendo que usam com ele de mais piedade que consentirem que a morte o esteja senhoreando e consumindo por termos tão vagarosos. E o pior é que, depois disto, o assam e cozem e lhe comem toda carne, e dizem que não hão de sofrer que coisa tão baixa e vil, como é a terra, lhes coma o corpo de quem tanto amam, e que pois é seu parente, e entre eles há tanta razão de amor, que sepultura mais honrada lhe podem dar que metê-lo dentro em si e agasalhá-lo para sempre em suas entranhas.
Pero de Magalhães de Gândavo

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