23 de outubro de 2016

Vaidade dos que elegeram a si mesmos


É preciso não se deixar induzir em erro: "Não julgueis!", dizem eles, mas mandam para o inferno tudo o que fica em seu caminho. Ao fazerem Deus julgar eles próprios; ao glorificarem a Deus, glorificam a si próprios; ao exigirem precisamente as virtudes para as quais são aptos - mais ainda, das quais necessitam, simplesmente para permanecerem acima, dão a grande aparência de uma luta pela virtude, de um combate pelo predomínio da virtude. "Vivemos, morremos, sacrificamo-nos pelo bem" ("a verdade", "a luz", "o reino de Deus"): na verdade fazem o que não podem deixar de fazer. Ao se encolherem à maneira de furtivos, ao se sentarem no canto, ao viverem na sombra como sombras, eles fazem disso seu dever: é como dever que aparece sua vida de humildade, e, como humildade, é uma prova a mais de devoção... Ah, essa humildade, casta, misericordiosa espécie de mendacidade! "Em nosso favor deve a virtude mesma testemunhar." - Leiam-se os Evangelhos como livros de sedução pela moral: a moral é confiscada por essa gente pequena - eles sabem o quanto vale a moral! A melhor maneira de conduzir pelo nariz a humanidade é com a moral! - A realidade é que aqui a mais consciente vaidade de eleitos faz o jogo da modéstia: colocaram de uma vez por todas a si mesmos, a "comunidade", os "bons e justos", de um lado, do lado da "verdade" - e o resto, "o mundo", do outro... Essa foi a espécie mais fatal de mania de grandeza que até agora existiu sobre a terra: uns pequenos abortos de carolas e mentirosos começam a reivindicar para si os conceitos "Deus", "verdade", "luz", "espírito", "amor", "sabedoria", "vida", como se fossem sinônimos de si, para com isso delimitar o "mundo" contra si.

Friedrich Nietzsche

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