25 de outubro de 2016

Todos os caminhos levam ao Divino


Funcionando como um "caminho", a mitologia e o ritual levam a uma transformação do indivíduo, desprendendo-o de suas condições históricas locais e conduzindo-o para algum tipo de experiência inefável. Funcionando como uma "ideia étnica", por outro lado, a imagem prende o indivíduo ao seu sistema familiar de valores, atividades e crenças historicamente condicionados, como um membro ativo de um organismo sociológico. Essa antinomia é fundamental ao nosso tema e cada fracasso em reconhecê-la leva, não apenas a uma polêmica desnecessária, mas também a um mal-entendido - de uma maneira ou de outra - quanto à força do próprio símbolo mitológico, que é, precisamente, transmitir uma vivência do inefável através do local e concreto, e assim, paradoxalmente, ampliar a força e atração das formas locais ao mesmo tempo que conduz a mente para além delas. O desafio característico da mitologia está em seu poder de desempenhar essa dupla finalidade, e não reconhecer esse fato é perder todo o sentido e mistério da nossa ciência.
Temos que reconhecer, portanto, que, mesmo quando uma única divindade é adorada, as variedades da experiência religiosa representadas pelos devotos podem diferir a tal ponto, que apenas sob o prisma sociológico mais superficial é que eles podem ser considerados correligionários. Eles são mantidos juntos sociologicamente por seu deus ou deuses, porém psicologicamente estão em planos diferentes.
"Entre os índios da tribo Dakota", ouvimos, por exemplo, de Paul Radin, "o que o homem comum considera como oito diferentes divindades, o sacerdote e o sábio tomam como aspectos de uma única e mesma divindade."
De maneira comparável, no mundo contemporâneo de comunicação intercultural, onde as mentes dos homens, transpondo as barreiras locais, podem reconhecer campos comuns de experiência e realização sob formas alheias, o que muitos clérigos e sociólogos consideram como oito diferentes divindades, o mitólogo e o psicólogo que trabalham com métodos comparativos podem tomar como aspectos de uma única. O santo e sábio do século XIX, Ramakrishna, enfatizou essa orientação psicológica - em oposição à etnológica - quando falou da unidade última de todas as religiões.
"Uma mãe prepara refeições para satisfazer os estômagos de seus filhos", ele disse. "Suponhamos que ela tenha cinco filhos e que um peixe tenha sido trazido à família. Ela não prepara pilau ou kalia para todos eles. Nem todas têm a mesma capacidade de digestão. Para alguns, ela prepara um simples cozido; mas ela ama a todos os seus filhos igualmente. (...) Vocês sabem qual é a verdade?", ele perguntou. E respondeu a sua própria pergunta:
Deus criou diferentes religiões para servir a diferentes aspirantes, épocas e países. Todas as doutrinas são apenas outros tantos caminhos; mas um caminho não é de maneira alguma o próprio Deus. De fato, pode-se alcançar Deus quando se segue qualquer um dos caminhos com devoção sincera. Sem dúvida, vocês já ouviram a história do camaleão. Um homem entrou no bosque e viu um camaleão numa árvore. Ele contou a seus amigos: "Vi um lagarto vermelho". Ele estava totalmente convencido de que era apenas vermelho. Outra pessoa, depois de ter visto a árvore disse: "Eu vi um lagarto verde". Ela estava totalmente convencida de que era apenas verde. Mas o homem que vivia embaixo da árvore disse: "O que vocês dois disseram é verdade. Mas o fato é que essa criatura é por vezes vermelha e por vezes verde, às vezes amarela e às vezes não tem nenhuma cor".
Todo estudioso de mitologia comparada sabe que quando a mente ortodoxa fala e escreve sobre Deus, as nações se separam; o aspecto histórico, local e ético do símbolo cultuado, é tomado com absoluta rigidez e o camaleão é verde, não vermelho. Ao passo que quando os místicos falam suas palavras convergem num sentido profundo, e as nações também. Os nomes de Shiva, Alá, Buda e Cristo perdem a força histórica e se unem como indicadores adequados de um caminho, que todos precisam percorrer se quiserem transcender suas faculdades e limitações determinadas pelo tempo e pela geografia.

Joseph Campbell

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...