Quando o jovem príncipe Gautama ultrapassou a infância e atingiu a juventude, aprendeu em poucos dias as ciências próprias à sua linhagem, coisa que os outros necessitam de muitos anos para dominar, e o rei, seu pai, procurou para ele em uma família de excelência moral irrepreensível uma nova dotada de beleza, modéstia e conduta suave, chamada Yashodhara, e o príncipe rejubilou-se com aquela princesa. E para que não tivesse nenhuma visão que pudesse perturbar sua mente, o rei preparara para ele uma residência longe das pressões do palácio, provendo-a de todos os prazeres. Com o ressoar suave das batidas de tamborim pelas mãos das mulheres dançando como ninfas celestiais, aquela residência resplandecia como a montanha dos deuses. Com suas belas vozes suaves, sua jocosa excitação, doces risadas e olhares furtivos, aquelas mulheres peritas nas artes do amor agradavam-no a tal ponto que uma vez, em busca do telhado de um pavilhão, ele escorregou; entretanto, jamais chegou ao chão: como um santo sábio saindo de uma carruagem celeste, ficou suspenso flutuando no ar.
No devido tempo, a bela e generosa Yashodhara deu à luz um filho, Rahula, e o bom rei, pai de Gautama, alegrando-se com o neto, redobrou as devoções às quais vinha se entregando desde o nascimento de seu próprio filho, Gautama. Ofereceu sacrifícios soma a Agni e outras divindades do panteão pronunciando frases dos Vedas, praticou a tranquilidade perfeita e observou numerosas disciplinas apropriadas aos leigos; mas sempre perguntando-se com que outros meios de sedução sensual poderia impedir que seu querido filho partisse para a floresta.
Reis prudentes desta terra que prezam a prosperidade zelam cuidadosamente os passos de seus filos no mundo; mas esse rei, embora devotado à religião, manteve o filho longe disso, voltando-o apenas para os objetos de prazer.
Entretanto, aqueles cuja "existência" (sattva) é "iluminação" (bodhi), os bodhisattvas, os futuros budas, depois de conhecerem o sabor do mundo, sempre, depois do nascimento e um filho, partem para a floresta. E assim, certo dia quando as lagoas de lótus estavam adornadas e as florestas cobertas de grama tenra, tendo ouvido sobre a beleza dos bosques da cidade caros às mulheres, o bodhisattva decidiu sair, como um elefante há muito tempo trancado em seu estábulo. E o rei, ao saber do desejo do filho, ordenou que uma comitiva se preparasse com extremas precauções para que nenhuma pessoa aflita aparecesse ao longo do caminho e perturbasse a mente protegida de seu filho.
Em uma carruagem de ouro, acompanhado de um ilustre séquito e por uma estrada atapetada de flores, o príncipe partiu, puxado por quatro cavalos mansos, e ao anúncio de sua passagem, "O Príncipe vem vindo", as mulheres, que haviam obtido permissão dos maridos, se apressaram para os telhados e assustaram os pássaros com o tilintar de suas cintas e guizos nos tornozelos ressoando até as estrelas. Algumas atrapalhavam-se com as tiras das cintas escorregando, atordoadas, tendo acabado de despertar e de vestir às pressas seus ornamentos; outras tinham dificuldade para subir simplesmente pelo peso de seus amplos quadris e seios abundantes. Debruçando-se incansavelmente nas janelas, empurrando-se entre a multidão, os ornamentos tilintando, as faces de lótus das mulheres brilhavam enquanto olhavam intensamente e suspiravam com mentes puras e sem sentimentos abjetos: "Feliz de sua esposa!"
Os deuses, entretanto, em suas moradas puras, reconhecendo o momento, enviaram um ancião a andar pela estrada.
O príncipe viu-o.
O príncipe dirigiu-se ao condutor da carruagem.
"Quem é aquele homem de cabelos brancos, mãos fracas segurando um bastão, olhos perdidos sob as sobrancelhas, membros curvados e andando à deriva? Alguma coisa aconteceu para alterá-lo ou é esse seu estado natural?"
"É a velhice", respondeu o condutor da carruagem, "que arrebata a beleza, acaba com a força, causa pesar, destrói os prazeres, envenena a memória e é inimiga dos sentidos. Em sua infância, ele também tomou leite e aprendeu a engatinhar, chegou passo a passo até o vigor da juventude e agora, também passo a passo, chegou à velhice."
O condutor da carruagem revelou dessa maneira, em toda sua simplicidade, o que deveria ser ocultado do filho do rei, que exclamou: "O que? E este mal atingirá a mim também?"
"Sem dúvida, por força do tempo", respondeu o condutor.
E o de grande alma, cuja mente, através de muitas vidas, tinha se apossado de grande quantidade de méritos, ficou agitado quando ouviu sobre a velhice - como um touro que ouviu de perto a explosão de um trovão. E pediu para ser levado para casa.
Outro dia, outra saída, e os deuses enviaram-lhe um homem afligido pela doença.
O príncipe disse: "Aquele homem, pálido e magro, de barriga inchada, respiração pesada, braços e ombros caídos e com todo o corpo alquebrado, pronunciando lamentosamente a palavra 'mãe' quando aborda um estranho: o que lhe aconteceu?"
Meu bom senhor", respondeu o condutor de carruagem, "é a doença".
"E esse mal é peculiar a ele ou são todos os seres igualmente ameaçados pela doença?"
"É um mal comum a todos", respondeu o condutor.
E, de novo, tremendo, o príncipe desejou ser levado para casa.
Pela terceira vez, ele saiu e as divindades enviaram-lhe um homem morto.
Disse o príncipe: "Mas o que é aquilo, carregado por quatro homens, vestido mas sem respirar e acompanhado de um séquito de pranteadores?"
O condutor de carruagem, com a mente pura subjugada pelos deuses, disse-lhe a verdade: "Esse, meu bom senhor, é o fim de todos os seres viventes".
Perguntou o jovem: "Como pode um ser racional, sabendo essas coisas, permanecer negligente aqui na hora da calamidade? Volta a carruagem, homem. Esta não é a hora nem o lugar para o prazer".
Dessa vez, entretanto, em obediência ao pai do jovem, o condutor prosseguiu até o festival das mulheres nos bosques. E o jovem príncipe, ao chegar, foi recebido como um noivo. Algumas acharam que era o próprio deus do amor encarnado; outras acharam que era a lua. Muitas ficaram tão comovidas que simplesmente abriram a boca como se fossem engoli-lo. E como o filho do sacerdote familiar as exortasse a fazer uso de seus encantos, tiveram as almas arrebatadas pelo amor. Elas atacaram o príncipe com todos os tipos de estratagemas. Encostando os seios contra ele, dirigiram-lhe convites. Uma abraçou-o violentamente, fingindo ter tropeçado. Outra sussurrou-lhe no ouvido: "Deixe meu segredo ser revelado". Uma terceira, com gestos apropriados, entoou uma canção erótica, fácil de entender, e uma quarta, com belos seios, riu, seus brincos a balançar no ar e gritou: "Pegue-me, senhor, se puder!" Mas ele, o mais excelente de todos os jovens, ali vagando como um elefante na floresta seguido de um rebanho de mulheres, apenas ponderou em sua mente agitada: "Essas mulheres não sabem que a velhice um dia lhes tirará a beleza? Sem verem a doença, são felizes aqui neste mundo de dor. E, a julgar pela maneira como riem em suas brincadeiras, não sabem absolutamente nada sobre a morte."
O séquito voltou para o palácio com as esperanças abaladas.
Assim o jovem e afetuoso príncipe tinha aprendido as lições negativas da velhice, da doença e da morte, que no sistema budista são os sinais de sofrimento de toda vida. E a circunstância da infância em vão superprotegida intensificou o impacto desses aspectos negativos da existência; pois a lenda é inteiramente simbólica, não uma biografia verdadeira. Um jovem sensível e bem-dotado é criado em um mundo de total ilusão até o período de fermentação, quando profundos choques psicológicos afetam, de fato, o espírito, e um choque em profundidade plena e consequentemente representado pelo que chamaríamos hoje de trauma. Sua busca, de agora em diante, será a de uma cura.
Mas uma cura com que finalidade? O retorno a este mundo, descoberto (para usarmos a frase terrível de Schopenhauer) como "algo que não deveria ter sido"?
Conforme Nietzsche escreve sobre o problema:
O mundo do dia a dia está separado por um abismo de esquecimento da realidade dionisíaca da vida, e quando, depois de uma percepção rápida dessa profundidade, o mundo do dia a dia novamente se descortina, é considerado apenas com repugnância. Uma disposição ascética, negativa para com a vontade de viver, é a consequência de tal estado mental.
Nesse sentido, o caráter dionisíaco lembra Hamlet. Cada um teve uma percepção real da natureza essencial das coisas. Eles são iluminados. E agora isso pode apenas tirar-lhes a vontade de agir. Pois seus feitos não podem mudar nada do que diz respeito à eterna natureza da existência. Por isso acham ridículo ou infame o fato de serem chamados a consertar o mundo - que está desarticulado. A iluminação paralisa a ação, que exige a presença de um véu de ilusão cobrindo a verdade. Essa é a moral de Hamlet. (...)
Porque, uma vez vista a verdade das coisas, tendo essa verdade em mente, pode-se ver em toda parte apenas a monstruosidade ou o absurdo da existência: compreende-se o simbolismo do destino da louca Ofélia. (...) E fica-se totalmente nauseado.
É fácil demais atribuir tal percepção da natureza das coisas e o choque resultante a um trauma psicológico e, então, escrever complacentemente sobre "adaptação". Semelhante banalidade apenas retira um véu de esquecimento, e sobre ele, um véu de ilusão. Pois o problema, de fato, é conservar a percepção obtida enquanto se procura orientá-la para o que Nietzsche denominou "saúde mais elevada".
E o chamado do jovem príncipe Gautama a essa finalidade veio-lhe na saída seguinte do ninho, quando viu o quarto e último dos Quatro Sinais.
Ele cavalgava em seu corcel branco, Kanthaka, por um campo que estava sendo arado e viu o capim novo não apenas cortado e espalhado, mas também coberto de ovos e larvas de insetos mortos. Cheio de profunda tristeza, como se fosse sua própria espécie abatida, ele desceu do cavalo e caminhou lentamente sobre o chão, refletindo sobre o nascimento e a destruição e pronunciando: "Realmente lamentável!" E, desejando estar a sós, foi sentar-se ao pé de uma macieira rosa num lugar ermo, sobre a terra coberta de folhas. Ponderando sobre a origem do mundo e sua destruição, ele resolveu manter-se no caminho da firmeza mental. E assim liberto de todas as causas de sofrimento, como o apego ao desejo pelos objetos do mundo, atingiu o primeiro estágio da contemplação. Ele estava tranquilo e absorto em pensamentos.
Em seguida, viu diante de si um asceta mendicante. "O que és tu?", ele perguntou, ao que o outro respondeu: "Aterrorizado pelo nascimento e morte, desejando libertar-me tornei-me asceta. Como mendigo, errando sem família e sem esperança, aceitando qualquer esmola, vivo agora por nada além do bem supremo". Em seguida, ele elevou-se para o céu e desapareceu; pois tratava-se de um deus.
De volta a casa, o príncipe foi até o pai reunido com sua corte e, prostrando-se, com as mãos juntas acima da cabeça, disse-lhe: "Ó Senhor dos Homens, quero tornar-me um asceta mendicante". Mas o rei, abalado como uma árvore atacada por um elefante, pegou as mãos juntas de seu filho e disse-lhe, afogado em lágrimas: "Ó meu filho, afasta essa ideia. Não é hora de te voltares para a religião. Durante o primeiro período da vida a mente é instável e a prática religiosa cheia de perigos". O príncipe olhou para ele e respondeu rispidamente: "Pai, não é certo deter uma pessoa prestes a escapar de uma casa que está se incendiando". E levantou-se e retornou a seu palácio, onde foi recebido por suas esposas. Mas o rei disse: "Ele não irá!"
Em seu palácio, o príncipe sentou-se num trono de ouro, cercado por aquelas graciosas mulheres que não desejavam nada mais do que agradá-lo com sua música. E os deuses encantaram-nas, de maneira que enquanto tocavam caíram no sono, deixando os instrumentos escorrega-lhes das mãos. Uma deitou com seu tambor como se fosse um amante. Outra, com os cabelos em desalinho, saias e ornamentos em desordem, era como uma mulher atropelada por um elefante. Muitas respiravam ruidosamente; outras, com os olhos brilhantes arregalados e paralisados, estavam feito mortas. Uma, com a nudez à mostra, babava como se estivesse embriagada. E todas, que antes ostentavam todas as graças, agora, com os trajes em desordem, estavam abandonadas à vergonha e ao desamparo. Eram como um lago de lótus varrido pelo vento.
O príncipe pensou: "Tal é a natureza das mulheres: impuras e monstruosas no mundo dos seres vivos! Enganado pelas aparências, o homem apaixona-se por seus encantos. Mas deixe que ele as veja em seu estado natural - a mudança produzida nelas pelo sono!"
E ele se ergueu, com vontade apenas de fugir para a noite.
Os deuses fizeram a porta do palácio abrir-se e o príncipe desceu à corte, indo diretamente ao condutor de sua carruagem. "Rápido!", ele disse, "estou indo embora." E o homem, conhecendo a ordem do rei, porém impelido por uma força superior, buscou o belo corcel branco, Kanthaka, que o príncipe, com sua mão de lótus, acariciou. "Ó tu que és o melhor dos cavalos", disse, "o rei, meu pai, cavalgando-te derrotou muitos inimigos. Portanto, empenha-te agora, pelo teu próprio bem e do mundo, para que eu também seja vitorioso." E o cavalo, levando o príncipe, galopou em silêncio a toda velocidade. Os gênios da terra abriram suas palmas aos cascos para que as pegadas não despertassem a noite. E Chandaka, o auriga, corria ao seu lado.
Os portões da cidade, trancados com pesada traves, abriram-se por si mesmos sem ruído. E o fugitivo, ao atravessá-los, olhou para trás e rugiu como um leão.
"Até que eu tenha visto a margem além de nascimento e morte, jamais entrarei de novo nesta cidade chamada Kapila."
E ao ouvir aquele poderoso rugido de leão, as hostes de deuses rejubilaram-se.
Começara a aventura que iria formar a civilização da maior parte da raça humana. O rugido do leão, o som do espírito solar, o princípio da pura luz da mente, sem receio de sua própria força, tinha irrompido na noite estrelada. E, da mesma forma que o sol ao nascer emite seus raios, espantando tanto os terrores quanto os êxtases noturnos, e o rugido do leão emitindo seu aviso pela planície repleta de animais espanta as maravilhosas gazelas amedrontadas, o rugido de leão daquele que assim irrompeu anunciou o salto leonino da luz que estava por vir.
Seres celestiais irradiavam luz ao longo do caminho daquele que tinha assim escapado do palácio de redes de ouro e teias para prender e embaraçar corações de leão. Ao alvorecer, o príncipe que não era mais príncipe chegou a um eremitério na floresta, onde realizaria sua primeira façanha no caminho do fogo. Gazelas e cervos dormiam ainda em calma e confiança e os pássaros repousavam tranquilamente. E ali chegando, o futuro Buda também descansou, como se sua meta tivesse sido atingida.
Ele desceu de seu cavalo, elogiou-o com algumas palavras e dirigiu-se a Chandaka. "Bom amigo, tua devoção a mim e tua bravura de espírito foram provadas pela condução desta montaria." E deu ao homem uma pedra preciosa, retirada de seu diadema, pedindo-lhe que voltasse com a montaria a Kapilavastu. "Não devo ser pranteado", ele disse. "Tampouco parti para a floresta em hora errada. Não há, na verdade, hora errada para a religião."
Chandaka afogou-se em lágrimas. "Ó mestre! O que dirá vosso pobre pai e vossa rainha com o filhinho? E, ó mestre, meu único refúgio é a vossos pés. O que será de mim?"
O futuro Buda respondeu: "Como os pássaros recorrem a seus abrigo nas árvores e não obstante partem, também os encontros de todos os seres acabam inevitavelmente em separação. Meu bom amigo, não te entristeças e parte, e se teu amor resistir, algum dia retorna. Aos de Kapilavastu dize que só retornarei depois de ter vencido a velhice e a morte, do contrário perecerei fracassado".
Ao ouvir isso, o cavalo, deixando pender a cabeça, derramou lágrimas quentes e lambeu as patas. O príncipe acariciou-o. "Tua natureza equina perfeita", disse ele, "foi constatada. Não chores, bom Kanthaka. Tua ação dará fruto."
Em seguida ele puxou da bainha sua espada pontuda, azul-escura, coberta de pedras preciosas, com a lâmina ornamentada de ouro. E tendo-a puxado, cortou de um só golpe o topete real de seus próprios cabelos. Juntamente com o diadema, jogou-o para o alto no ar onde os deuses, tomando-o respeitosamente, levaram-no com gritos de júbilo para ser adorado no céu.
Com o passo de um leão e a beleza de um cervo, o futuro Buda penetrou no bosque, e todos ali, experientes em penitências, deixaram suas atividades. Encantados, os pavões soltaram gritos; as vacas em oblação derramaram seu leite. Ascetas pastando como cervos imobilizaram-se junto com os cervos. E o príncipe disse àqueles que se aproximaram: "Bons senhores, como este, hoje, é meu primeiro eremitério, por favor explicai-me os propósitos de tais atividades".
"Folhas, água, raízes e frutos, alimentos não cultivados", disseram-lhe: "isto e apenas isto é o alimento destes bons santos. Alguns, como os pássaros, bicam sementes; outros pastam, como os cervos. Alguns vivem de ar e vivem como as cobras entre as formigas, às quais permitem fazer formigueiros à sua volta. Alguns poucos, com grande esforço, conseguem alimentar-se de pedras. Outros comem grãos moídos com seus próprios dentes. Outros, como os peixes, vivem na água, permitindo que as tartarugas arranhem sua carne; enquanto muitos, com os cabelos emaranhados sempre molhados, oferecem oblações a Agni, entoando hinos. Porque a dor, dizemos, é a raiz do mérito. O céu é conquistado pelas maiores penitências, os objetivos terrenos pelas menores; mas seja qual for o caso, é pelo caminho da dor que eventualmente a felicidade será obtida."
O futuro Buda pensou: "É na melhor das hipóteses o céu que eles estão conquistando. Mas se a dor é religião e a felicidade não-religião, então, pela religião eles estão conquistando a não-religião. Como, entretanto, é apenas pela mente que o corpo age ou não age, o que deveria ser controlado não é o corpo, mas o pensamento. Sem o pensamento, o corpo não passa de uma tora. Tampouco a água irá lavar o pecado".
Esse era um argumento emprestado pelo jovem príncipe da escola psicológica de Kapila, com o qual se refutava tanto o jainismo quanto as cruéis e extremadas disciplinas iogues puramente físicas praticadas naquele eremitério. Entretanto, um segundo pensamento concebido naquela ocasião, conforme apresentado pela visão Mahayana, aponta para além de Kapila em direção ao fundamento último da religião popular que iria emergir, um dia, da descoberta e ensinamento do Buda, referente a seu Caminho do Meio. O futuro Buda refletiu: "Uma vez que se deve procurar um lugar na terra que possa ser devidamente chamado sagrado, que seja um onde haja algo tocado por um homem virtuoso. Eu contaria como metas de peregrinação apenas as virtudes daqueles que manifestaram virtude".
Já há em seu pensamento uma racionalização do culto popular budista posterior, o das relíquias, e, em contraposição a um caminho filosófico, é prescrito um amplo interesse por um caminho religioso - de redenção. Pois a influência final que se pretende aqui não é apenas sobre o pensamento, mas sobre o caráter. O pensamento pode transformar o caráter, mas mesmo a simples presença de um personagem pode também causar tal milagre de transformação. A curiosa impaciência popular por apenas ver, tocar e juntar lembranças de "personalidades" - que no Ocidente de hoje em geral não se considera uma variante do empenho religioso - no Oriente é exatamente assim, como foi em nossa própria Idade Média, e o futuro Buda, nessa biografia, parecia ter sido preparado para adaptar esse desejo a seu sistema, como um complemento popular, secundário, mas de maneira nenhuma inconsequente. A relíquia do Ceilão do Dente do Buda e as relíquias preservadas em toda parte nas estupas do mundo budista, trazem à mente aquelas ideias das virtudes dos virtuosos pelas quais são purificados "os pecados" - ou seja, pensamentos equivocados e, consequentemente, palavras e ações equivocadas.
O futuro Buda permaneceu apenas algumas noites naquele diligente e tranquilo bosque eremitério, observando os iogues em suas penitências e, quando se dispôs a partir, eles todos juntaram-se, implorando que não fosse. "Com tua chegada", disse um ancião, "este eremitério ficou pleno. Meu filho, seguramente não vais nos deixar agora. À nossa frente temos os sagrados Himalaias para olhar, habitados por santos; tua presença multiplica o mérito de nossas penitências. Nas redondezas há numerosos centros de peregrinação: escadas para o céu. Ou talvez tenhas visto aqui alguém negligenciar seus ofícios? Algum pária? Algum impuro? Fala e nós te ouviremos com alegria!"
O autor desse texto, de aproximadamente 100 d.C., pertencera à casta brâmane antes de participar da ordem budista, e aqui satiriza humoristicamente as devoções de sua própria crença anterior: as penosas austeridades dos iogues da floresta, sua reverência aos poderosos Himalaias, a glorificação da peregrinação, as ideias de mérito espiritual e o reconhecimento das castas.
"Bons santos", disse o futuro Buda, "vossa devoção é para ganhar o céu, enquanto meu desejo é não mais renascer. A cessação não é o mesmo que a ação. Por isso, não posso continuar vivendo neste bosque sagrado. Todos aqui, como os grandes sábios védicos, estão bem firmes em suas tarefas religiosas, as quais estão em perfeita concordância com o estilo dos tempos passados."
Os ascetas reunidos prestaram-lhe a devida reverência, e certo brâmane de olhos vermelhos, deitado sobre cinzas, levantou a voz. "Ó sábio, és verdadeiramente corajoso em teu propósito. Na verdade, todo homem que, ao ponderar profundamente as alternativas do céu e da libertação, decide pela libertação, é corajoso! E assim, vai agora até o sábio Arada. Ele é aquele que obteve percepção da bem aventurança absoluta."
O futuro Buda pôs-se a caminho, mas duas interrupções ocorreram antes de ele chegar ao eremitério de Arada. Pois quando o condutor da carruagem retornou ao palácio sem seu amo, e com um cavalo que se recusava a comer e virando-se para a floresta relinchava repetidos lamentos, o rei, que estava no templo, recebeu a notícia e caiu no chão. Erguido por criados, ele olhou para o selim vazio e voltou a cair. Então um conselheiro ofereceu-se para buscar o filho e, com a bênção do rei, montado numa carruagem, chegou ao eremitério, onde soube que o príncipe tinha partido em busca de Arada. Ele alcançou o príncipe, desceu e abordou-o.
"Ó Príncipe, pensa", ele disse, e relatou toda a confusão em casa. Mas a resposta não lhe deu nenhuma esperança. "Retornarei a casa", disse o futuro Buda, "apenas com o conhecimento da verdade. E se fracassar em minha busca eu preferiria antes entrar nas labaredas do fogo do que na minha casa."
O conselheiro retornou, e o príncipe, depois de atravessar o Ganges, chegou à cidade de Rajagriha, onde o rei, Bimbisara, percebendo de seu palácio uma multidão que crescia e se movia lentamente na rua, perguntou a razão daquilo e foi informado. O jovem mendicante deixou a cidade e subiu a encosta de uma montanha vizinha, para onde Bimbisara o seguiu acompanhado de um pequeno séquito e logo o viu sentado tão calmamente quanto a própria montanha. O rei, um leão entre os homens, aproximou-se respeitosamente, sentou-se na superfície limpa de uma rocha e, com o consentimento do peregrino, dirigiu-lhe a palavra.
"Gentil jovem, tenho uma grande amizade com tua família e se, por algum motivo, não desejas o reino de teu pai, então aceita, aqui e agora, a metade do meu. Tu és um amante da religião: mas dizem que ao jovem pertencem os prazeres; ao homem de meia idade, a riqueza e os bens; a religião é para os velhos. Tu deverias desfrutar dos prazeres agora. Entretanto, se a religião é realmente teu único objetivo, então está bem, oferece sacrifícios de acordo com a tradição de tua estirpe e, dessa maneira, merece o supremo céu."
O príncipe replicou. E quando acabou de falar, primeiro da gratidão pela amizade do rei e depois sobre a velhice, a doença, a morte e também sobre os sofrimentos daqueles que desejam o prazer, declarou que havia abandonado o mundo por completo, inclusive os objetivos mais elevados.
"E com relação ao que acabais de dizer, ou seja, que eu deveria ser diligente em sacrifícios dignos de minha estirpe, que trazem frutos gloriosos, louvados sejam tais sacrifícios! Mas não desejo nenhum fruto obtido através da dor e da morte. Fiz este caminho para visitar Arada, o profeta, e estarei com ele hoje mesmo. Portanto agora, vós podeis guardar o mundo, ó Rei, como Indra; guardá-lo incessantemente, como o Sol; guardar sua felicidade; guardar a terra e guardar a religião."
Bimbisara ergueu suas mãos juntas ante a face dele. "Vai!", ele disse. "Estás a caminho de tua meta. E quando, finalmente, tiveres alcançado a vitória, volta aqui e concede-nos tua graça."
O rei retornou ao palácio. O príncipe ergueu-se e seguiu seu caminho. E o sábio Arada, em seu refúgio na floresta, avistando-o de longe, deu-lhe boas vindas com um forte grito. De olhos arregalados, ele dirigiu-se ao jovem que se aproximava.
"Não é nenhum milagre quando reis se retiram para a floresta na velhice, passando suas glórias para os filhos como se deixa uma grinalda depois de tê-la usado. Mas isto é para mim um milagre. Tu és um eleito."
O príncipe, sentando-se, pediu para ser ensinado, e o sábio relatou-lhe toda a lição do mestre Kapila.
"Aquilo que nasce tem necessariamente que envelhecer e morrer; isto é determinado pelas leis do tempo e é denominado o manifesto, do qual o não manifesto deve ser distinguido por oposição.
"Pois bem, com referência à causa da existência temporal, ela é tríplice, ou seja, ignorância, ação e desejo, cada um conduzindo os outros dois. Ninguém que permaneça nesse círculo alcança a verdade das coisas.
"Essa permanência equivocada é o primeiro erro, do qual derivam, na seguinte sequência: egotismo, confusão, indiscriminação, falsos meios (ritos e coisas semelhantes são falsos meios), apego e o infortúnio da gravitação. As pessoas pensam: "Este sou eu", e logo, "isto é meu", e desse modo precipitam-se para baixo para novos nascimentos.
"Portanto, deixemos que o sábio conheça estas quatro coisas: o manifesto e o não manifesto; iluminação e não iluminação. Conhecendo-as, pode-se apreender o imortal."
O ouvinte perguntou quais os meios para se atingir tal saber e o sábio ancião Arada revelou:
"Antes de tudo, a vida mendicante; nela, a prática da sujeição dos sentidos conduz à satisfação, dentro da qual é experienciado o primeiro estágio estágio da contemplação: um novo êxtase e deleite. O sábio passa para o segundo estágio: um mais elevado e luminoso êxtase e deleite.
Continuando até o terceiro, chega-se ao êxtase sem o deleite, onde muitos permanecem; mas há um quarto estágio de contemplação, isto é, sem o êxtase, e o verdadeiro sábio vai ainda além desse, para se livrar de todo sentido de corpo.
"Porém, para experienciar o vazio do corpo, é preciso antes, no estado de contemplação, fazer uso de todas as aberturas do corpo, resultando disso uma sensação de vazio nas partes sólidas. Ou, considerando-se o habitante do corpo puro espaço, pode-se levar essa consideração além do espaço, reconhecendo-se um vazio ainda mais refinado. Uma terceira via é abolir o sentido de ser uma pessoa contemplando a Pessoa Suprema.
"Então, como um pássaro que escapou de sua gaiola, a pessoa que escapou do corpo é considerada liberada. Nós a chamamos Pessoa Suprema - eterna, imutável, vazia de atributos - cujo conhecimento os sábios que conhecem a realidade chamam Libertação.
"Bem, já te ensinei tanto a meta quanto o caminho e, se compreendeste e concordaste com ambos, coloca-os agora em prática."
O futuro Buda tinha ponderado, mas não aceito.
"Ouvi teus sutis ensinamentos, profundos e preeminentemente auspiciosos; porém, eles não podem ser conclusivos, pois não ensinam como livrar-se da Pessoa, o Si-Próprio Supremo. Embora o Si-Próprio purificado possa ser chamado livre, enquanto esse Si-Próprio permanecer não há nenhum verdadeiro abandono do egotismo. Ademais, se o Si-Próprio em seu estado prístino é livre, como é que ele foi aprisionado? Eu mantenho que a única realização absoluta se dá pelo abandono absoluto."
Ele levantou-se e, inclinando a cabeça, deixou o sábio Arada.
E foi até outro sábio, Udraka, que tinha encontrado paz para seu desassossego na ideia de que não há nada nem nomeado nem não nomeado. Essa ideia, ele chamou visão além do nome e não nome, além do manifesto e não manifesto.
Depois de ouvi-lo o futuro Buda deixou também Udraka.
E chegou a um agradável eremitério à margem do gracioso rio Nairanjana, onde se juntou a cinco mendicantes em um método de disciplina baseado em abstinência progressivamente mais austera; até que apenas pele e ossos, macilento por nenhum propósito, ele considerou: "Mas este, certamente, não é o caminho para a impassibilidade, conhecimento e libertação, que não podem ser atingidos sem força".
Em seguida ele recordou sua primeira meditação ao pé da macieira rosa quando, depois de ter visto a morte espalhada em um campo arado, ele descera de seu cavalo e refletira sozinho. "Aquele", ele pensou, "era o verdadeiro caminho". E pensou mais: "A calma perfeita - o controle da própria mente - só pode ser obtida pela satisfação constante e perfeita dos sentidos. A contemplação produz-se quando a mente, controlada, está em repouso. E pela contemplação pode ser alcançado aquele estado de calma perfeita, imperecível, que é tão difícil de conseguir. Tudo isso depende de ingerir comida".
E assim, mais uma vez, ergueu-se. E, tendo se banhado, magro como estava, no gracioso rio Nairanjana, voltou à margem apoiando-se nas árvores ao longo do rio.
A bela Nandabala, filha de um dos principais pastores daquelas paragens, movida e guiada pelos deuses, aproximou-se de onde ele estava sentado e, fazendo uma reverência com súbita alegria no coração, ofereceu-lhe uma boa tigela de leite, que restabeleceu suas forças; mas os cinco mendicantes, considerando que ele tinha retornado ao mundo, partiram. O príncipe levantou-se e, sozinho, acompanhado apenas de sua própria decisão, dirigiu seus passos até a árvore Bodhi onde, segundo se sabe, sentou-se no Ponto Imóvel.
Esta versão Mahayana dos feitos do Buda conta-nos que quando o Senhor da Morte (mara) - que no mundo chamamos de Prazer (kama) - fracassou em seu esforço para movê-lo, o Santo recordou na primeira vigília daquela noite o grande número de suas vidas anteriores e, pensando: "Toda existência, qualquer que seja, é insubstancial", sentiu compaixão por todos os seres. Em sua busca pela passagem além do sofrimento, ele já tinha demarcado o Caminho do Meio entre a dedicação ao prazer (kama) e à dor (mara). Agora, como primeiro fruto de sua passagem entre as rochas antagônicas desses dois extremos, ele vivenciava uma nova dimensão do Caminho do Meio; ou seja, por um lado, a compreensão de que todos os seres carecem de natureza intrínseca (anatman) e, por outro e simultaneamente, a compaixão por todos os seres (karuna).
Esta pode ser considerada a postura fundamental da mente budista. O comprometimento da mente ocidental com os interesses e valores do ser vivente é basicamente rejeitado, como o é no jainismo e, também, no sistema Sanquia. Entretanto, o típico interesse oriental pela mônada também é rejeitado. Não há nenhuma mônada-herói reencarnante a ser salva, libertada ou encontrada. A vida inteira é sofrimento e, no entanto, não há nenhum Si-Próprio, nenhum ser, nenhuma entidade no sofrimento. Não há nenhuma razão, consequentemente, para sentir aversão, choque ou náusea diante do espetáculo do mundo; mas, pelo contrário, o único sentimento apropriado é a compaixão (karuna), de fato, imediatamente sentida quando se compreende a verdade paradoxal e incomunicável de que todos esses seres sofredores são, na realidade, não seres.
Então, qual terá sido o princípio ilusório que fez com que tantos seres - embora carecendo de um Si-Próprio - estejam ocupados consigo mesmos a ponto de supor que os sofrimentos próprios e os dos outros constituem um problema cósmico e dizer: "A vida é algo que não deveria ser?"
A resposta veio ao Santo na segunda vigília daquela noite, quando alcançou uma visão divina e viu o mundo como em um espelho imaculado: os tormentos do condenado, a transmigração das almas humanas para bestas e todas as variantes de nascimento, puro e impuro. Ele viu claramente então que onde há nascimento há inevitavelmente velhice, doença e morte; onde houve apego há nascimento; onde há desejo há apego; onde há percepção há desejo; onde há contato há percepção; onde há órgãos sensoriais há contato; onde há organismo há órgãos sensoriais; onde há consciência incipiente há organismo; onde há inclinações resultantes de atos há consciência incipiente, e onde há ignorância há inclinações.
A ignorância, portanto, precisa ser designada como a raiz.
Pela cessação da ignorância, os sofrimentos de todos os seres existentes são interrompidos.
O Bem aventurado considerou: "Essa, então, é a causa do sofrimento no mundo dos seres vivos, e esse, portanto, é o método para sua cessação."
De 1, a ignorância, procedem, na seguinte sequência: 2. ações, 3. novas inclinações, 4. consciência incipiente (augurando nova vida), 5. um organismo, 6. órgãos sensoriais, 7. contato, 8. percepções, 9. desejo, 10. apego, 11. renascimento e 12. velhice, doença e morte.
Ele encontrara o que buscava. Ele estava desperto: "aquele que tinha visto". Ele era o Buda.
Muito tem-se escrito sobre a crença budista e há tanto desacordo sobre o significado da cadeia de causação dos doze elos (pratitya-samutpada) que acabamos de descrever, que o problema ficou no ar. Entretanto, o principal ponto da doutrina é suficientemente claro: já que todas as coisas carecem de natureza intrínseca, carecem de um Si-Próprio, nenhuma tem que alcançar a extinção; cada uma já está, na verdade, extinta e sempre o esteve. A ignorância, entretanto, conduz à ideia e, em consequência, à experiência, de uma entidade que sofre. Portanto, em vez de indiferença ou aversão, deve-se sentir compaixão por aqueles sofredores que, caso se livrassem de sua ideia de ego, saberiam que não há "pessoa" sofrendo em absolutamente nenhum lugar - e experienciariam esse fato.
Quando alcançou essa iluminação, o Buda pensou: "Mas como posso ensinar uma sabedoria tão difícil de ser apreendida?"
Esse, portanto, é o segundo ponto: o budismo não pode ser ensinado. O que se ensina são simplesmente os caminhos que levam dos vários pontos da bússola espiritual até a árvore Bodhi, e conhecer esses caminhos não é suficiente. Ver a árvore não é suficiente. Mesmo ir sentar-se sob a árvore não é suficiente. Cada um tem que encontrar e sentar-se, ele próprio, sob a árvore e, então, em meditação solitária, iniciar a passagem para dentro, para o interior de si mesmo - que não está absolutamente em nenhum lugar.
Os deuses espalharam flores do céu e Buda, sobre um trono, elevando-se no espaço até sete vezes a altura de uma palmeira, dirigiu-se aos bodhisattvas de todos os tempos: "Oh! Oh! Ouvi minhas palavras", ele exclamou, iluminando-lhes as mentes. "É por atos meritórios que tudo é alcançado. Por tais atos, através de muitas vidas, tornei-me primeiro um bodhisattva e sou agora o Vitorioso, Todo-Sábio. Portanto, enquanto houver vida, adquiri méritos!"
Aqui temos, portanto, um terceiro ponto, o ponto principal do caminho Mahayana, em oposição ao Hinayana. Ele é conhecido como o Caminho do bodhisattva, o meio de viver no mundo sem retirar-se para a floresta: adquirindo experiência e com ela o conhecimento da verdade da não existência do eu através do dar - dar sem limites - realizando altruisticamente a própria missão na vida.
Os bodhisattvas de todos os tempos, depois de venerarem o Buda, desapareceram e chegaram os deuses, jogando flores; em seguida, o Vitorioso, descendo ao nível da terra, permaneceu em seu trono, imerso em reflexão por sete dias e seu único pensamento era: "Alcancei a sabedoria absoluta".
A terra estremeceu de seis maneiras diferentes, como uma mulher arrebatada de alegria; miríades de universos ficaram iluminados, e os seres de todos os mundos, descendo, circum-ambularam o Buda, retornando a suas moradas.
Mais sete dias e ele foi banhado por seres celestiais com jarros de água dos quatro oceanos.
Um terceiro período de sete dias e ele permaneceu sentado de olhos fechados.
Um quarto período de sete dias e ele estava de pé sobre seu trono, assumindo muitas formas quando um deus, descendo, perguntou o nome da meditação das quatro semanas passadas. "Ela chama-se, ó ser divino", respondeu o Buda, "a Ordem do Alimento do Grande Júbilo. É o festival da coroação de um rei que, tendo conquistado todos seus inimigos, goza agora de prosperidade. Os budas passados também permaneceram, como estou permanecendo aqui, sob suas árvores Bodhi."
O céu ficou escuro por sete dias e caiu uma prodigiosa chuva. Entretanto, o poderoso rei das serpentes, Mucalinda, veio das profundezas da terra e protegeu com seus capelos aquele que é a fonte de toda proteção. Quando a grande tempestade passou, o rei-serpente assumiu sua forma humana, fez uma reverência ao Buda e retornou em júbilo ao seu palácio.
O Buda encaminhou-se para uma grande figueira, onde ficou sentado por mais sete dias; depois encaminhou-se para outros lugares. Dois prósperos mercadores suplicaram por chumaços dos seus cabelos e fragmentos de suas unhas para a construção de um santuário. Os quatro deuses dos pontos cardeais chegaram com a oferenda de quatro tigelas para esmolas que se tornaram uma única, da qual o Vitorioso bebeu uma oferenda de leite. E uma deusa, filha dos deuses, sorrindo, trouxe-lhe para sua investidura um traje de farrapos.
É extremamente difícil para uma mente ocidental compreender quão profunda é a impessoalidade oriental. Mas, se quisermos compreender algo daquele mundo tão distante com o qual ora estamos dialogando, é necessário abandonar a imagem de uma espécie de alma-Buda pré-rafaelesca sentada inocentemente sobre um lótus, dissolvendo-se no nirvana com amor a todos os seres em seu coração de lótus - imagem que um número considerável de sentimentalistas pintaram para nós.
Certa vez, o Venerável Ananda aproximou-se do Mestre e disse: "É maravilhoso, ó Mestre, que a Originação Dependente que ensinastes, apesar de ser tão profunda e parecer tão profunda, a mim pareça absolutamente clara".
"Não fales assim, Ananda; pois essa Originação Dependente que eu ensinei é profunda e parece profunda, também. É do não despertar para essa verdade, Ananda, do não penetrá-la, que essa originação ficou embaraçada como um novelo de linha, envolta em desgraça, retorcida como um cipó e não consegue libertação do sofrimento, do mal das circunstâncias, do incessante redemoinho, deste círculo cíclico."
O primeiro encontro significativo entre o Ocidente e o Oriente, em nível de tentativa de intercâmbio filosófico, ocorreu quando o primeiro e mais brilhante de todos os ocidentais chegou: o jovem Alexandre o Grande. Depois de destruir todo o Império Persa com um único e poderoso golpe, ele chegou disseminando ruínas e surgiu no Vale do Indo em 327 a.C., envolvendo-se imediatamente tanto em observações filosóficas quanto políticas, econômicas e geográficas. Estrabão nos informa que em Taxila, a primeira capital indiana que ele invadiu, Alexandre e seus oficiais souberam de um grupo de filósofos sentados em reunião fora da cidade, e imaginando réplicas de seus próprios professores e modelos (o tutor de Alexandre, Aristóteles, ou aquele famoso tagarela, Sócrates), enviaram uma delegação para convidar o círculo de eruditos à mesa de Alexandre. E o que eles encontraram foram quinze sujeitos completamente nus sentados imóveis numa superfície de pedra torrada pelo sol, tão quente que ninguém podia pisar nela sem calçado. O chefe da delegação, Onesicrito, fazendo um daqueles cavalheiros saber através de uma série de três intérpretes que ele e seu rei desejavam aprender algo de sua sabedoria, recebeu a resposta de que a ninguém que tivesse a petulância de vir de botas de cano longo, chapéu de aba larga e cota cintilante de cavalaria, como as que os macedônios usavam, se podia ensinar filosofia: o aspirante - ainda que viesse de Deus - deveria primeiro ficar nu e ter aprendido a sentar-se impassivelmente sobre a pedra escaldante. O grego, cujo próprio mestre tinha sido Diógenes, sem intimidar-se por tal afronta, falou a um segundo pensador nu a respeito de Pitágoras, Sócrates, Platão e demais, e o indiano, apesar de admitir que ais homens deviam ser originários de uma grande nação, expressou pesar e surpresa por eles terem mantido tanto respeito pelas leis e costumes de seu povo a ponto de terem negado a si mesmos a vida superior, permanecendo vestidos.
Estrabão prossegue contando que, entretanto, dois deles, um mais idoso e outro mais jovem, foram finalmente persuadidos pelo rajá de Taxila a irem até a mesa de Alexandre, mas quando deixaram a rocha foram acompanhados pelos insultos de seus companheiros e, quando retornaram, se retiraram para um lugar isolado. Ali, o velho ficou deitado de costas, exposto ao sol e à chuva, enquanto o mais jovem ficou apoiado alternativamente sobre uma perna e outra durante todo um dia, com uma vara de cerca de 2 metros de comprimento em cada mão.
Outro do grupo, que os gregos apelidaram Kalanos, porque usava a palavra kalyana, ("sorte"), para saudar as pessoas, acompanhou o séquito por algum tempo, tornando-se uma figura famosa entre os guerreiros e os filósofos em volta do jovem rei. No entanto, quando o exército, voltando-se para oeste, chegou à Pérsia, ele pediu a Alexandre que mandasse construir uma grande pira, para a qual foi carregado numa liteira, adornado à maneira indiana e cantando numa língua que os gregos não conseguiam entender. À vista do exército, ele subiu e assumiu a postura sentada de pernas cruzadas de iogue. A construção tinha sido coberta de vasos de ouro e prata, materiais preciosos e outros tesouros, que ele distribuiu entre os amigos. Depois, ordenou que a pira fosse ateada. As trombetas gregas soaram, todas ao mesmo tempo. O exército inteiro gritou, como se estivesse iniciando uma batalha. Os elefantes indianos soltaram seus urros peculiares. As chamas, subindo, envolveram a figura, que os espectadores viram sentada imóvel. E Kalanos, deixando assim os gregos, renasceu imediatamente, pode-se supor, talvez no Céu do Pescoço, para permanecer por inúmeros milhões de oceanos de períodos indefinidos de nos em algum estado inconcebível de prazer.
Pode ser surpreendente, mas o relato grego é a mais antiga evidência tangível da prática da ioga na Índia ária. Pois não encontramos até agora nenhuma testemunha, seja escrita ou de pedra cinzelada, registrando todo o período de tempo desde a destruição das cidades do Indo até o ano da chegada de Alexandre. Depois daquele evento, entretanto, o desenvolvimento - primeiro na política e mais tarde nas artes - revelou coisas a partir das quais foi possível reconstruir os tempos védicos anteriores e os primeiros séculos budistas. Isto se conseguiu através da maravilhosa mágica da filologia à qual, em anos recentes, somou-se a mágica da arqueologia.
A expectativa que os iogues encontrados por Onesicrito tinham a respeito dos filósofos dignos desse título, era que deviam rejeitar as leis e costumes de seu povo, despojar-se das roupas como prova do abandono deste mundo e retirar-se para uma rocha quente. Isso demonstra que por volta de 327 a.C., o mais tardar, já estava desenvolvida a ideia fundamental indiana da finalidade da vida humana, que inspira até hoje todo pensamento tipicamente indiano e motiva aquele lugar-comum a respeito de o indiano ser "espiritual" e o ocidental "materialista" - uma espécie de axioma da arena internacional, inclusive do circuito de coquetéis da moda, em que os indianos bebem suco de tomate. Entre os jainistas, que representam in extremis essa visão dualista, a interpretação física do problema do desapego conduzia a um desenvolvimento nítido, inequívoco de votos progressivos, evoluindo da condição de aprisionamento do leigo até a liberdade, depois de muitas vidas, do Vitorioso. "O universo", lemos em um texto típico, "é constituído de jiva e não jiva. Quando eles estão separados, nada mais é necessário; mas quando unidos, como o estão no mundo, a interrupção e a dissolução - primeiro gradual e depois final - de sua união são as únicas considerações possíveis." E também no sistema Sanquia, como aprendemos do sábio Arada, o conceito de uma separação essencial da pessoa especial (purusa) do mundo da matéria (prakrti) confirmava a visão de que a vida mendicante, com controle dos sentidos etc., era o único verdadeiro caminho para aquele estado de isolamento espiritual (kaivalyam) - única meta verdadeira para o homem. Da mesma forma, no primeiro corpo dos escritos budistas, o do cânon páli do Ceilão de cerca de 80 a.C., tal ideal é mantido em sua pureza acima de todos os outros. E as escolas budistas derivadas desse centro, as chamadas Escolas Sulistas de Burma, Tailândia e Camboja, dão indiscutida primazia a esse ideal negativo (do ponto de vista mundano), tendo como símbolo o Buda enquanto monge. Conforme lemos em um dos primeiros salmos da ordem:
Cada um por si, (nós) vivemos na floresta,
Como toras rejeitadas pela arte do lenhador;
E mais de um inveja minha sorte,
Que mesmo acorrentado ao inferno, a caminho do céu.
Entretanto, nos primeiros monumentos budistas de pedra, os do primeiro grande leigo da fé, o rei Ashoka, que reinou entre cerca de 268 e 232 a.C., dois séculos antes da escrita do cânon, parece que um ideal e mitologia contrários já estavam começando a se desenvolver em torno da figura do homem vivendo no mundo da mesma forma que o Buda vivera por incontáveis vidas - e vive agora em cada um de nós - atingindo o nirvana não pela cessação, mas pelo desempenho dos atos. E no decorrer dos séculos seguintes, culminando no período do reinado de Kanishka, cerca de 78 a 123 d.C. (ou, segundo outra estimativa: cerca de 120 a 162 d.C.), esse tema secular se desenvolveu a tal ponto que a visão monástica anterior, que negava o mundo, foi desafiada fundamentalmente como uma arcaica interpretação equivocada do Caminho do Meio. O termo bodhisattva, "aquele cuja existência (sattva) é iluminação (bodhi)", fora empregado no vocabulário anterior do cânon páli do Ceilão para designar aquele que está a caminho da realização, mas que ainda não chegou: um Buda em suas vidas anteriores, um futuro Buda. Por outro lado, no novo vocabulário cânon sânscrito que se desenvolveu no norte e noroeste da Índia nos primeiros séculos da nossa era, o termo foi usado para representar o sábio que, vivendo no mundo, recusa a graça da cessação embora tenha alcançado a realização e, assim, permanece um perfeito conhecedor do mundo, um farol, um guia e salvador compadecido de todos os seres.
Pois se, como o Buda anunciara, não há nenhum Si-Próprio a ser encontrado em parte alguma, se todos já estão extintos por natureza e se o que deve ser controlado não é o corpo, mas o pensamento - então, por que toda essa conversa sobre viagem e chegada à outra margem? Já estamos lá! Alguns, de fato, para controlar suas mentes, podem ter que raspar as cabeças, recolher esmolas com suas tigelas, fugir para a floresta e olhar para os cervos em vez de olhar para os homens. Mas aqueles realmente dotados para a sabedoria do Buda podem ordenar suas mentes em casa e, ao mesmo tempo, ajudar os outros na realização da sabedoria do Buda em suas próprias vidas vividas. Pois, como Heinrich Zimmer certa vez observou: "A estação de rádio SDB, Sabedoria Do Buda, está sempre no ar: tudo o que precisamos é de um aparelho receptor".
Vimos como Ashvaghosha introduziu o tema do bodhisattva na cena da noite da Iluminação, onde antes não havia existido. Sobre um trono, ascendendo no espaço até sete vezes a altura de uma palmeira, o recém iluminado Buda dirigiu-se aos bodhisattvas de todos os tempos: "É por atos meritórios que tudo é alcançado". Depois ele desceu à terra e os acontecimentos retomaram seu curso normal. Da mesma forma, em outro importante episódio posterior, o da primeira volta da Roda da Lei no Parque dos Cervos de Benares, Ashvaghosha acrescentou ao sermão usual, pregado aos cinco ascetas famintos com quem Gautama tinha passado a última fase de seus anos de busca, uma segunda mensagem, dirigida não a qualquer um na terra, mas a Maitreya, o futuro Buda, que estava esperando no Céu dos Deuses Felizes para nascer cinco mil anos após a partida de Gautama e havia chegado, juntamente com numerosos deuses e bodhisattvas, para assistir a essa Primeira Volta da Roda da Lei.
"Tudo o que é sujeito a causação", disse o Buda a Maitreya e outros à sua volta, "é como uma miragem, um sonho, a lua vista na água, um eco: nem removível, nem existente por si. E a própria Roda da Lei é descrita nem como 'ela é' nem como 'ela não é'. E tendo ouvido e recebido essa lei com alegria, ide agora, felizes para sempre. Pois isto, senhores, é o Mahayana, anunciado por todos os budas. Venerando os budas, os bodhisattvas, os pratyeka budas (budas que não ensinam) e os arhats (sábios iluminados), um homem gerará em sua mente a ideia do Estado de Buda e proclamará a Lei em boas obras. Em consequência, onde essa doutrina pura prevalece, mesmo o chefe de família que vive em sua casa se torna um buda."
Assim, o Mahayana, "a grande (maha) barca (yana)", é uma embarcação sobre a qual todos viajam - e, de fato, estão viajando - indo a lugar nenhum, já que todos estão extintos. É um passeio, um festival de júbilo. Ao passo que o Hinayana, "a abandonada (hina) barca (yana)", é uma embarcação diligente relativamente pequena, transportando apenas iogues através do redemoinho que eles desdenham, a caminho de absolutamente nenhum lugar! De maneira que, afinal, eles também estão numa viagem a passeio, mas parecem não saber.
Joseph Campbell

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