25 de outubro de 2016

Serpente


Na cena de Eva junto da árvore nada é dito para indicar que a serpente que apareceu e falou com ela era uma divindade legítima, reverenciada no Levante durante pelo menos sete mil anos antes da composição do Livro do Gênese. Há no museu do Louvre um vaso verde entalhado em pedra-sabão, inscrito por volta de 2025 a.C. pelo rei Gudea de Lagash, dedicado a uma manifestação suméria tardia do consorte da deusa, sob seu título real de Ningizzida, "Senhor da Árvore da Verdade". Duas serpentes copulando, enroscadas num pilar à maneira do caduceu de Hermes, deus grego do conhecimento místico e do renascimento, são mostradas através de um par de portas abertas que estão sob a custódia de dois dragões alados de um tipo conhecido como leão-pássaro.
A maravilhosa capacidade da serpente de mudar de pele e assim rejuvenescer, transformou-a, em todo o mundo, em símbolo de mestre do mistério do renascimento. Por sua vez, a lua - que cresce mas também míngua, perde sua sombra e novamente cresce - é o símbolo celeste desse renascimento. A lua é a senhora e a medida do ritmo gerador de vida do útero. Portanto, também o é do tempo, através do qual os seres nascem e morrem. É senhora do mistério do nascimento e igualmente da morte. Os dois, por sua vez, são aspectos de um único estado de existência. A lua é a senhora das marés e do orvalho que cai à noite para refrescar o verde que os animais pastam.
Mas a serpente também é a senhora das águas. Vivendo na terra, entre as raízes das árvores, frequentando fontes, charcos e cursos d'água, desliza em movimentos ondulantes. Ou sobe igual ao cipó nos galhos, onde se pendura como uma fruta mortal. A sugestão fálica é imediata e, na sua capacidade de engolir, também sugere o órgão feminino, manifestando em consequência uma imagem dual, que atua de modo sub-reptício sobre os sentimentos. Igualmente há uma associação dual do fogo e da água com o efeito de seu bote: o dardo de sua língua bífica e a queimadura letal de seu veneno. Quando imaginada mordendo sua cauda, como uróboro mitológico, sugere as águas que em todas as cosmologias arcaicas circundam - também sustentam e permeiam - o círculo flutuante da ilha Terra.
 
Joseph Campbell

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