25 de outubro de 2016

Papai (do céu)


Uma espécie de paz reina em uma família onde as crianças são ensinadas simplesmente a amar seus pais, mas também a sentir ciúme, ódio e raiva secretamente em relação a eles. A emoção "oficial" é apenas positiva. Um estranho pode dizer que se trata de uma falsa paz, mas para os envolvidos ela funciona. Mas o sentimento negativo teria realmente desaparecido? É necessário muito amadurecimento antes que uma pessoa possa conviver com a ambivalência e sua constante mistura de luz e escuridão, amor e ódio.
Um amigo meu me contou uma história comovente do dia em que ele se tornou adulto, segundo suas palavras. Ele era uma criança bastante protegida, até mesmo mimada, cujos pais eram muito reservados. Ele nunca os via discordar; tinham um cuidado especial em estabelecer uma linha divisória entre o que os adultos da família discutiam entre si e o que contavam aos filhos. A atitude é psicologicamente saudável e meu amigo se lembra de uma infância quase idílica, livre de ansiedade e conflito.
Um dia, porém, quando ele tinha uns dez anos, acordou tarde da noite com vozes alteradas vindas do térreo. Sentiu um calafrio de medo, certo de que algum crime estava acontecendo. Depois de alguns instantes, percebeu que seus pais estavam brigando. Muito perturbado, levantou-se e desceu correndo. Quando entrou na cozinha, viu os dois se confrontando.
"Não encoste a mão nela ou eu o mato!", ele gritou, atirando-se contra o pai. Seus pais ficaram perplexos e fizeram todo o possível para acalmar o garoto - não houvera violência, apenas uma discussão áspera - mas algo mudou dentro dele mesmo depois de ter compreendido a situação. Já não podia acreditar em um mundo perfeito.
Ele começou a ver a mistura de amor e ódio, paz e violência, com que todos nós temos que conviver. No lugar da certeza, agora havia ambiguidade - pessoas em quem ele antes confiava cegamente haviam mostrado um lado mais obscuro. Por associação, o mesmo é verdade para todos nós e, por extensão, para Deus.
Todos nós temos que enfrentar esse conflito, mas o resolvemos de maneiras diferentes. Algumas crianças tentam preservar a inocência negando que o oposto exista; transformam-se em idealistas e sonhadoras. Demonstram um forte traço de negação quando algo "negativo" ocorre e continuam ansiosas até que a situação fique "positiva" outra vez. Outras crianças tomam partido, atribuindo a um dos pais todos os traços de temperamento que provocam a ansiedade, enquanto rotulam o outro como sempre bom. Ambas as táticas recaem na categoria de mecanismos para enfrentar uma situação; portanto não é surpresa verificar o quanto permeiam a crença religiosa.
A solução bom e mau em referência aos pais assume a forma de uma batalha cósmica entre Deus e Satanás. Há provas abundantes no Antigo Testamento de que Jeová é voluntarioso e cruel o suficiente para assumir o papel do pai mau. Até mesmo um homem de imensa retidão como Moisés no final é impedido de entrar na terra prometida. Nenhuma quantidade de medo e amor, seja como for que você a misture, é suficiente para satisfazer esse Deus. Sua imprevisibilidade não tem limites. No entanto, se esse retrato é inaceitável, deve haver um "adversário" (o significado literal da palavra Satanás) para tirar a culpa de Deus. O diabo aparece no Antigo Testamento como tentador, enganador, ladrão de almas, o anjo caído Lúcifer, que por orgulho tentou usurpar a autoridade de Deus e teve que ser lançado ao inferno. Pode-se dizer que ele é a luz que se tornou maligna. Mas ele nunca é descrito como um aspecto de Deus. A separação dos dois simplifica consideravelmente a história, como o faz para uma criança que decide que um dos pais tem que ser bom e o outro mau.
A outra estratégia para enfrentar uma situação, que envolve ignorar o negativo e buscar sempre ser positivo, é igualmente comum na religião. Muitos males têm que ser ignorados para tornar Deus inteiramente benigno, entretanto as pessoas conseguem agir dessa forma. No drama familiar, se houver mais de uma criança, as interpretações se tornam fixas. Um dos filhos terá absoluta certeza de que não houve nenhuma ofensa ou conflito, enquanto outro terá igual certeza da presença do insulto. O poder de interpretação está vinculado à consciência; não existe aquilo do qual você não tem consciência, por mais real que possa parecer a outras pessoas. Em termos religiosos, alguns crentes contentam-se em amar a Deus e temê-lo ao mesmo tempo. Essa dualidade não envolve de forma alguma qualquer condenação da divindade. Ele continua a ser "perfeito" (isto é, ele sempre tem razão) porque aqueles que ele castiga devem estar errados.
Nesse caso a fé depende de um sistema de valores predeterminado. Se uma doença recai sobre mim, eu devo ter cometido algum pecado, ainda que inconscientemente. Minha tarefa é procurar bem fundo até encontrar a falha dentro de mim mesmo e, então, verei que o julgamento de Deus foi perfeito. Entretanto, para alguém fora do sistema, parece que uma criança que foi maltratada está procurando descobrir, através de uma lógica retorcida, como se tornar errado para que o pai e a mãe cruel continue a ter razão.

Deepak Chopra

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