23 de outubro de 2016

Os cátaros


No ano de 1198, o cabido de Rougemont acusou-o de perjúrio, simonia e incesto. Mas quando ele foi chamado a Roma, os acusadores não ousaram prosseguir nas acusações. Entretanto, não as retiraram e o grande perito nas Leis de Deus, Inocêncio III, citando benevolentemente Cristo no caso da mulher adúltera ("Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra"), mandou o prelado de volta para casa, a fim de que se penitenciasse e fosse absolvido. E, de fato, Rougemont retornou: a viver em incesto com sua prima, a Abadessa de Remiremont, e em intimidade menos excepcional com suas outras concubinas, uma das quais era freira e outra a filha de um padre; considerando que, enquanto isso, nenhuma igreja em sua província podia receber consagração sem pagar para ele; monges e freiras que podiam dar-lhe propinas recebiam permissão para deixar os conventos e se casar, e seus clérigos regulares foram reduzidos, por suas extorsões, a viver como camponeses, por sua própria conta. No ano de 1211 iniciou-se uma segunda tentativa para removê-lo, a qual, entretanto, simplesmente arrastou-se até que, finalmente, por volta da época do próprio Concílio de Latrão, seu povo rebelou-se e o expulsou. Ele se retirou para o Mosteiro de Bellevaux, onde morreu em paz no ano de 1225.
O Bispo de Toul, Maheu de Lorraine, que era um adepto da caça, tinha como concubina preferida a própria filha que teve com uma freira de Epinal. Ele foi consagrado em 1200. Dois anos depois, seu cabido, reduzido à pobreza, solicitou a Inocêncio III a remoção do Bispo. Mas foi apenas após uma série complicadíssima de procurações e apelos, intercalados por atos de violência, que ele foi deposto em 1210. Sete anos mais tarde ele fez com que seu sucessor, Renaud de Senlis, fosse assassinado, depois do que seu próprio tio, Thiebault, Duque de Lorraine, encontrando-o por acaso, matou-o ali mesmo.
Do trovador Peire Cardenal (c.1205-1305?), que havia sido estudante de teologia por um tempo, provêm os seguintes versos:

É verdade que os monges e freiras fazem ampla demonstração
Dos regulamentos austeros a que todos eles se submetem,
Mas esse é o mais vão de todos os fingimentos.
Na verdade, eles vivem duas vezes melhor, como sabemos,
Do que viviam em suas casas, apesar de seus votos
E sua falsa ostentação de abstinências.
Na verdade, não há vida mais folgazã que a deles;
E se excedem especialmente os frades mendicantes,
Cujos hábitos concedem liberdade de ação por onde quer que andem.
Esse é o motivo que leva às Ordens
A tantos homens desprezíveis, ávidos de vil metal,
Que possam dar lugar a seus vícios,
E o hábito os protege em suas pilhagens.

O grande trovador germânico Walther von der Vogelweide (1198 a 1228) também escreveu:

Teus clérigos roubam aqui e matam ali,
E a tuas ovelhas, guarda-as um lobo.

E de São Bernardo de Clairvaux (1090-1153) surge a pergunta: "A quem podem vocês mostrar-me entre os prelados que não procura antes esvaziar os bolsos de seu rebanho do que dominar seus vícios?" E de Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179): "Os prelados são violadores das igrejas, sua avareza consome tudo o que elas podem adquirir. Com suas opressões eles nos tornam indigentes e contaminam a nós e a si próprios".
Não é de estranhar, então, saber que no curso do século XII desenvolveu-se em toda a Europa uma tendência profunda, não apenas de anticlericalismo, mas também de heresia radical, da qual os cátaros ou albigenses das mais belas cidades e regiões do sul da França foram os exemplos mais ameaçadores. Não é preciso repetir aqui em toda a sua extensão a terrível e bem conhecida história da extinção papal dessa seita. A questão principal, para o nosso propósito, é que os albigenses parecem haver sido uma variante ressurgente da religião maniquéia. Essa, por sua vez, chegara na Europa há não muito tempo, via Bulgária, Bósnia, Hungria e, então, Itália, florescendo especialmente no sul da França dos trovadores.
Assim como o cristianismo de Agostinho, o maniqueísmo também considerava corrupta a natureza; entretanto, não pelo pecado de Adão, mas por ser criada por um deus mau. E a redenção seria alcançada não pelos sacramentos funcionando magicamente por si mesmos, mas pela virtude. Foi hábito das críticas cristãs ridicularizar a ideia maniqueísta de que a virtude de seu clero era o único e verdadeiro meio pelo qual o princípio do espírito e da luz - preso nas malhas da escuridão material - se libertaria e retornaria ao seu estado natural. Por mais bizarro que o mito possa ter parecido aos não iniciados em seu significado - embora não seja, obviamente, mais bizarro que o próprio mito cristão ou, na verdade, qualquer outro interpretado literalmente -, ele continha o que, para aquela época, era o resultado surpreendente da criação de um tipo de clero que podia ser respeitado como modelo das virtudes que pregava. O resultado foi uma vasta - e, para a Igreja, perigosa - popularidade, contra a qual as medidas mais vigorosas foram invocadas.
Havia, aparentemente, muitas seitas albigenses. A característica proeminente de todas era a extrema austeridade de seus excelsos santos vivos, conhecidos como os "purificados" ou "perfeitos": os cathari. Como no budismo, também aqui a ideia básica era a da reencarnação e libertação: o progresso por meio de muitas vidas do espírito preso na ignorância e na ilusão, até um estado final de libertação pela iluminação. Como os Budas vivos, também os cathari serviam tanto de iniciadores quanto de modelos, para os "crentes" que ainda não estavam espiritualmente prontos para consumar as grandes renúncias do salto final em direção à libertação. Os crentes - auditores - podiam casar-se e comer carne: os perfeitos - boni homines - eram ascetas vegetarianos.
Entretanto, como os escritos dos cátaros albigenses foram destruídos e o nosso conhecimento de suas práticas provêm basicamente dos seus inimigos, pouco se pode dizer a respeito delas. Parece, contudo, que os boni homines eram venerados pelos auditores; que o rito cátaro mais importante era um mistério de iniciação espiritual conhecido como o consolamentum; que uma forma de ritual suicida mediante o jejum absoluto, conhecido como endura, era ocasionalmente praticado pelos santos (como pelos jainistas da Índia); e que quando, sob perseguição cristã, ofereciam-lhes as alternativas da retratação ou da fogueira, tanto os simples "crentes" quanto os "perfeitos" escolhiam inexoravelmente a última.
Na verdade, nas palavras de Henry Charles Lea, "se o sangue dos mártires fosse realmente o germe da Igreja, o maniqueísmo seria hoje a religião dominante na Europa". Já em 1017 - que é a data mais antiga que se tem registro de uma incineração pública de hereges -, treze albigenses de um grupo de quinze, apreendidos em Orleans, permaneceram firmes e foram levados para a fogueira. Em Toulouse, em 1022, houve outra execução desse tipo; em 1051 houve mais uma, em Goslar, na Saxônia. Em Colônia, um século depois, 1163, os queimados causaram uma impressão profunda pela animada disposição com que aceitaram a fogueira. Arnold, o líder deles, já em chamas, colocou uma mão que tinha livre sobre as cabeças dos que queimavam a seu lado e lhes disse calmamente: "Permanecei constantes em vossa fé, porque hoje vós estareis com Lourenço!" Gerhard, o líder de outro grupo executado em Oxford na mesma época, cantava enquanto caminhava com seus seguidores para a fogueira: "Abençoados sois quando os homens vos insultam". E no sul da França, durante a abominável Cruzada Albigense de 1209-1229, após a captura do Castelo de Minerva, cento e oitenta foram juntos para a fogueira e o monge cronista do espetáculo observou: "sem dúvida, estes mártires do mal passaram, todos, das chamas temporais para as eternas".
O problema para a Igreja no sul da França estava na indiferença da aristocracia aos anátemas, excomunhões, bulas, representações diplomáticas, núncios apostólicos e tudo o mais que emanasse de Roma para impedir o crescimento da heresia. O clímax aconteceu em 1167, quando os cátaros realizaram um concílio próprio em St. Félix de Caraman, perto de Toulouse. Seu dignitário supremo, o Bispo Nicetas, chegou de Constantinopla para presidi-lo; foram eleitos bispos para as dioceses vagas de Toulouse, Val d'Aran, Carcassonne, Albi e da França ao norte do Loire; foram nomeados delegados para decidir uma disputa de fronteira entre as dioceses de Toulouse e Carcassonne; e "em resumo", como observa Henry Charles Lea, "tudo era como em uma Igreja instituída e independente, que considerava a si própria destinada a substituir a Igreja de Roma".
Roma, todavia, reagiu. O Papa Alexandre III (1159-1181) convocou o Terceiro Concílio de Latrão que, no ano de 1179, deu o passo sem precedente de proclamar uma cruzada dentro da própria cristandade. Prometeu-se uma indulgência de dois anos (isto é, uma abreviação de dois anos do período de permanência da alma no purgatório) a todos os que tomassem as armas; e aos que morressem pela causa era assegurada salvação eterna. Dessa maneira formou-se um exército para servir sem pagamento terreno e, no ano de 1181, essa força espiritual lançou-se sobre os domínios do Visconde de Béziers e tomou, depois de sitiá-la, a cidade fortificada de Lavaur (entre Albi e Toulouse), onde a Viscondessa Adelaide e vários outros cátaros importantes haviam se refugiado. A cidade fortificada, segundo os informes, foi tomada apenas por milagre e, em toda a França, hóstias consagradas pingando sangue anunciaram aos fiéis a vitória de suas armas cristãs. A cruzada, depois de ter conquistado para si o céu, debandou e nada mais foi feito com relação ao avanço da heresia até que o Papa Inocêncio III, no ano de 1209, enviou um exército de grande magnitude, da cidade de Lyon, para a matança.
Foram séculos, em toda a Europa, de todos os tipos de histéricos arrebatamentos grupais. Consequência da pregação da Primeira Cruzada (1096-1099) - primeiro pelo Papa Urbano II e, em seguida, por um tipo de fanático errante, do qual Pedro, o Eremita, foi o mais famoso (cujo burro tornou-se objeto de veneração religiosa) - os camponeses eram arrancados da terra e lançados aos milhares, em ondas de fervor, ao encontro do desastre, de uma maneira ou outra, seja a caminho ou na própria Terra Santa.
As promessas fantasiosas da Cruzada Infantil do ano de 1212 não passou de mais um desses arrebatamentos grupais. Fenômenos semelhantes de menor magnitude foram tão variados quanto comuns em todas as partes; como na curiosa epidemia de dança que atingiu seu clímax no século XIV, nos anos da Peste Negra. Era comum encontrar nas estradas multidões de flagelantes, nus até a cintura, cabeças envoltas em panos, carregando estandartes, velas acesas e chicotes, açoitando-se ao compasso de hinos espirituais. Foi uma época em que a advertência de Cristo - "quando orares, entra no teu quarto, fechando tua porta" - era pouco considerada. O chamado de Inocêncio III para formar um exército foi, por isso, recebido com uma carga emocional da alta voltagem. Recrutas - tanto de sangue nobre quanto plebeu - foram arrebanhados de todos os cantos da Europa, de tão longe quanto Bremen e de tão perto quanto Borgonha e Nevers. Na Alemanha, cidades e aldeias foram tomadas por mulheres espiritualmente inflamadas que, impossibilitadas de gastar seu fervor religioso unindo-se ao exército papal da Cruz, despiam-se e podiam ser vistas percorrendo nuas - sozinhas ou em grupos - as ruas e estradas.
O Papa Inocêncio III, dois anos antes da formação de sua horda, tinha excomungado o Conde Raymond de Toulouse, que fora um dos principais defensores dos direitos de seus parentes e amigos albigenses a render culto do modo que preferissem. Logo após sua excomunhão - que liberara todos os súditos do conde de lealdade a ele, bem como de juramentos e obrigações -, ocorreu que um representante papal, quase imediatamente após uma rixa com o conde, foi morto pela lança de um cavaleiro. Parece que Raymond foi o autor do crime - embora, na verdade, possa não ter sido - e para limpar sua honra e alma, ele se propôs, confuso, a concordar, em penitência, com as condições do papa. Estas, como então descobriu, eram que ele deveria entregar ao poder da Igreja suas sete fortalezas mais importantes, depois do que - se ele pudesse provar-se inocente -, seria absolvido.
Raymond, para sua infelicidade, esqueceu-se, na ocasião, do reconhecido princípio cristão de que acordos feitos com hereges podiam - ou mesmo deviam - ser violados. Ele deixou-se, por isso, ser conduzido, nu até a cintura, até os representantes papais no portal da Igreja de São Gilles, onde jurou, sobre as relíquias de São Gilles, obedecer à Igreja em todas as acusações que se faziam contra ele. O núncio apostólico colocou uma estola em volta do seu pescoço. E enquanto era açoitado nas costas e ombros nus, conduziu-o - em meio a uma multidão de curiosos que lá estava para testemunhar a degradação de seu senhor - até o altar-mor, onde foi absolvido sob a condição de que devia extirpar a heresia de seu domínio, demitir todos os judeus de seus cargos, restituir todas as propriedades espoliadas da Igreja, abolir todos os tributos arbitrários e participar da cruzada. Então, quando as terras que entregou foram ocupadas, ele foi novamente excomungado - o que, de fato, fora o plano inicial de Inocêncio III - e se iniciou o grande avanço do poderoso exército da Cruz Cristã em direção às regiões mais ricas da França.
Havia cerca de vinte mil cavaleiros e duzentos mil soldados de infantaria. Parte significativa da riqueza do império fora arrecadada por meio de "contribuições" sob pena de excomunhão, e o salário da recompensa eterna tornava-se prodigamente acessível a todos. As muralhas da bela cidade de Béziers foram as primeiras a cair e o massacre que se seguiu não tinha, até então, paralelo na história europeia: os representantes papais relatam uma matança de quase vinte mil pessoas, das quais sete mil só na Igreja de Maria Madalena, para a qual tinham fugido em busca de refúgio; e quando o representante autorizado no comando foi interrogado se os católicos deviam ser poupados, temendo que alguns dos hereges pudessem escapar fingindo ortodoxia, ele respondeu, com o verdadeiro espírito de um homem de Deus em seu coração: "Matem todos, porque Deus sabe quem são os seus!" A cidade foi incendiada. E o sol naquele entardecer pôs-se sobre um cenário de fumaça, perfeitamente adequado para ilustrar a visão cátara de que o papa e sua Igreja não provinham da semente do amor divino, AMOR, mas ao contrário (como a palavra, lida de trás pra frente, parecia mostrar), ambos eram os autênticos criadores do inferno na terra, o qual, de acordo com a própria doutrina cátara, é o único inferno que existe. Seguiu-se a queda de Carcassonne: a cidade, em pânico, rendeu-se. Foi permitido que sua população a deixasse, levando consigo nada além de seus pecados, os homens de calções, as mulheres de saias, enquanto os soldados, pagos com a promessa do Reino de Cristo, ocuparam-na. No final do verão, o poderoso papa pôde escrever, em seu elegante estilo latino, sobre sua felicidade ardente pela fantástica tomada de quinhentas cidades e fortalezas do poder dos súditos da impostura e da perversidade do demônio.
A Toulouse do Conde Raymond foi a próxima cidade da lista... Mas o leitor interessado poderá, por conta própria, procurar saber o final daquela sórdida história. Ela continuou por mais vinte anos, deixando o sul da França em ruínas e a Igreja de Roma não mais segura que antes no seu trono de tirania.
 
Joseph Campbell

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