23 de outubro de 2016

Burguesia


A burguesia é o outro nome da sociedade moderna. Ela designa essa classe de homens que foi progressivamente destruindo, com sua atividade livre, a antiga sociedade aristocrática, baseada na hierarquia de nascença. Ela já não é definível em termos políticos, como o cidadão antigo ou o senhor feudal. Ora, a burguesia não tem mais um lugar definido na ordem do político, ou seja, da comunidade. Ela cabe inteira no econômico, categoria esta que, aliás, ela inventa ao vir o mundo: na relação com a natureza, no trabalho, no enriquecimento. Classe sem estatuto, sem tradição fixa, sem contornos estabelecidos, ela só tem um título frágil à dominação: a riqueza. Frágil porque pode pertencer a todos: aquele que é rico poderia não sê-lo. Aquele que não é poderia sê-lo.
De fato, a burguesia, categoria social definida pelo econômico, ostenta em suas bandeiras valores universais. O trabalho define não mais os escravos, como na Antiguidade, ou os não-nobres, como nas aristocracias, e sim a humanidade inteira. Constitui o que é possuído pelo homem mais elementar, o indivíduo em sua nudez primeira frente à natureza; supõe a liberdade fundamental de cada um desses indivíduos, e igual em todos, de conseguir uma existência melhor, aumentando suas propriedades e suas riquezas. Assim, o burguês se julga liberto da tradição, religiosa ou política, e indeterminado como pode sê-lo um homem livre e igual em direito a todos os outros. Ele regula sua conduta relativamente ao futuro, pois deve inventar-se a si mesmo e ao mesmo tempo à comunidade de que é membro.
Ora, é problemática a existência social deste personagem histórico inédito. Ei-lo aqui brandindo no teatro do mundo a liberdade, a igualdade, os Direitos Humanos, em suma, a autonomia do indivíduo, contra todas as sociedades da dependência que apareceram antes dele. E qual é a associação nova proposta por ele? Uma sociedade que só ponha em comum o mínimo vital, uma vez que seu principal dever é garantir a seus membros o livre exercício de suas atividades privadas e o gozo garantido do que adquiriram. Quanto ao resto, é problema deles: os associados podem ter a religião que escolherem, suas próprias ideias do bem e do mal, estão livres para irem atrás de seus prazeres e dos fins particulares dados às suas existências, contanto que respeitem os termos do contrato mínimo que os liga aos seus concidadãos. A sociedade burguesa é, assim, destacada por definição da ideia de bem comum. O burguês é um indivíduo separado de seus semelhantes, fechado em seus interesses e em seus bens.
Ele é ainda mais separado e fechado porque sua obsessão constante é aumentar essa distância que o afasta dos outros homens: o que é tornar-se rico, a não ser tornar-se mais rico do que o vizinho? Num mundo onde nenhum lugar está antecipadamente reservado nem adquirido para sempre, a paixão inquieta do futuro agita todos os corações e não encontra em nenhum lugar um apaziguamento duradouro. O único sossego da imaginação está na comparação de si mesmo com o outro, na avaliação de si mesmo através da admiração, da inveja ou do ciúme dos outros. Mas esse sossego mesmo é por natureza precário, se é verdade que, dependente de situações provisórias e constantemente ameaçado em seu fundamento, ele deve continuamente buscar reassegurar-se num aumento de riquezas e de prestígio.
Assim, a sociedade é animada por uma agitação corpuscular que a joga continuamente para a frente. Mas essa agitação aprofunda as contradições inscritas em sua própria existência. Não basta ela ser formada de associados pouco inclinados a se interessar pelo interesse público. É preciso, também, que a ideia de igualdade-universalidade dos homens, ostentada por ela como seu fundamento e que é a sua novidade, seja constantemente negada pela desigualdade das propriedades e das riquezas, produzida pela competição entre seus membros. Seu movimento contradiz seu princípio; seu dinamismo, sua legitimidade. Ela não se cansa de produzir desigualdade – mais desigualdade material do que qualquer sociedade conhecida – ao passo que proclama a igualdade como um direito imprescritível do homem. Nas sociedades burguesas, a desigualdade é uma ideia que circula de contrabando, contraditória à maneira como os indivíduos se imaginam a si mesmos; e, no entanto, ela está em toda parte na situação que eles vivem e nas paixões que ela alimenta. A burguesia não inventa a divisão da sociedade em classes. Mas faz dessa divisão um sofrimento, envolvendo-a numa ideologia que a torna ilegítima.
Essa burguesia, que se distingue com tanta paixão do alto e do baixo da sociedade, justificando como em nenhum outro lugar seu outro nome de “classe média”, não nutre, porém, nenhum objetivo econômico particular: não gosta da aristocracia, mas a imita. Teme o povo, mas compartilha a sua prudência camponesa.
Os homens do século XIX acreditaram fortemente que a democracia liberal moderna expunha a sociedade a um perigo constante de dissolução, em consequência da atomização dos indivíduos, de sua indiferença pelo interesse público, do enfraquecimento da autoridade e do ódio entre as classes. O que seu (burgueses) passado tem de grande torna tanto mais visível o que seu presente tem de miserável.
Eis aí, portanto, o burguês tornado tradicionalista por medo: negação de si mesmo que nem por isso lhe dá uma tradição. Detesta a revolução, mas está forçosamente apoiado nela. Fora dela, só há a tradição dos outros, a da aristocracia ou a da monarquia, lhe emprestando a roupagem. O burguês cessou de encarnar a liberdade, para se tornar o pai de família autoritário e tirânico, maníaco por conforto, obcecado por suas propriedades. Em suma, tudo o que o burguês inventou se voltou contra ele.
Através do dinheiro ele é o mais odiado; o dinheiro reúne contra ele os preconceitos dos aristocratas, o ciúme dos pobres e o desprezo dos intelectuais. Um rei é infinitamente maior do que a sua pessoa, um aristocrata recebe seu prestígio de um passado mais antigo do que ele, um socialista prega a luta por um mundo onde ele não mais existirá. Mas o homem rico, por sua vez, é apenas o que é: rico, somente. O dinheiro não prova suas virtudes nem sequer o seu trabalho.
O burguês revelou sua verdadeira ambição: instituir um mercado, não uma cidadania. Daí que ele encarne, do moderno, só a parte ruim: é o símbolo do capitalismo e não da democracia.
O burguês é condenado a viver nesse sistema aberto, que põe em movimento paixões contraditórias e poderosas. Fica preso entre o egoísmo calculista, pelo qual se enriquece, e a compaixão, que o identifica ao gênero humano, ou pelo menos aos seus concidadãos. Entre o desejo de ser igual, logo semelhante a todos, e a obsessão da indiferença, que o lança na busca da mais insignificante distinção. Entre a fraternidade, horizonte de uma história da humanidade, e a inveja, que constitui seu motor psicológico vital. O burguês deve contentar-se em existir nesse intervalo, em que uma metade de si mesmo detesta a outra metade e em que, para ser um bom cidadão, deve ser um mau burguês, ou então ser um mau cidadão, se quiser continuar sendo um burguês de verdade.

François Furet

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