Na Olinda do tempo de Duarte de Sá, inexistia vida privada como a entendemos hoje. Na ausência dos donos da casa, adentrava-se por ela, com a maior sem-cerimônia, até os recessos que consideramos mais íntimos. Sem pedir licença, trazem-se da residência do próximo objetos que lhe pertencem. Eis, entre várias cenas da documentação inquisitorial, uma especialmente reveladora. Certo Manuel Fernandes ouve ruídos insólitos provenientes da morada de um vizinho e, espreitando-a, entreviu uma das moças da família na companhia de uma parenta, "fazendo uma com outra como se foram homem com mulher". Manuel não reagiu como voyeur mas à lusitana. "Deu rijo na porta e abriu", invadindo o aposento. Reciprocamente, as pessoas ofereciam-se facilmente ao olhar indiscreto de terceiros: Maria de Lucena não tomava precauções quando ia dormir com as criadas índias. Falava-se alto, embora sabendo-se que, de fora, se escutava tudo. Mesmo no meio rural, a intimidade era precária. O feitor do engenho podia estar informado do prato que a dona da casa rejeitara ao almoço.
A falta de intimidade comum a ricos e a pobres facilitava o controle social exercido sobre os cristãos-novos. Sibaldo Lins, homem principal, deu-se à pachorra de vigiar, no decurso de um ano inteiro, os sábados do ourives Rui Gomes, estabelecido com loja em frente à igreja da Misericórdia, constatando que, naqueles dias, Rui como bom marrano substituía o negócio pelo ócio. O comportamento dos conversos durante a missa era o objeto preferencial da espionagem. Sicrano não fazia reverência quando o padre nomeava Jesus; beltrano não se ajoelhava nos momentos de praxe e até se dava ao desplante de fazer trejeitos e momices ofensivos ao Santíssimo Sacramento; fulano chegara mesmo a expelir discretamente a hóstia que acabara de receber. João Nunes previsivelmente era o mais visado, comportando-se de maneira desrespeitosa, sem reverência nem atenção à cerimônia, puxando conversa com quem estivesse ao lado; "e assim", conforme um dos seus denunciantes, "o vê estar na igreja como se estivera na praça".
Na península Ibérica e seus prolongamentos ultramarinos, a esfera privada tornara-se suspeita em decorrência do combate à heresia, o "olho enorme" da Inquisição, a que aludiu Gilberto Freyre, operando no sentido de inibir ou atrasar o desenvolvimento dos modelos de vida privada como os que começavam a se firmar na Europa ocidental, graças inclusive ao aprofundamento da vida religiosa trazido pela Reforma e pela Contrarreforma. A documentação inquisitorial permite detectar os obstáculos que se deparavam aos conversos para conseguirem o isolamento e segredo indispensáveis à observância dos mais simples ritos judaicos. Na residência de Olinda ou na casa-grande de engenho, o sobrado, isto é, o andar superior erguido sobre a loja, ou andar térreo, constituía o único reduto da vida íntima e, no caso dos cristãos-novos, o aposento apropriado às práticas mosaicas.
A própria higiene corporal era motivo de constante bisbilhotagem em conexão com os deveres sabáticos da comunidade cristã-nova. Nos séculos XVI e XVII, ela consistia não no uso da água mas na mudança periódica da roupa, sobretudo da camisa, preferência que os franceses sofisticariam sob a forma da toilette sèche. A periodicidade da muda podia variar social e climaticamente, mas via de regra tinha lugar todas as semanas. Os cristãos-velhos vestiam roupa limpa ou de festa no domingo e os cristãos-novos, no sábado, o mesmo se aplicando à roupa de cama e mesa. A denúncia contra Branca Dias é típica das que se fizeram contra outros marranos. "Vestida do seu vestido da semana", isto é, do domingo à sexta-feira, aos sábados, no engenho ou na vila, punha camisa lavada, toucado também lavado e o melhor traje que possuía. Também nos sábados o ourives Rui Gomes passeava por Olinda "com camisa lavada e vestido com roupa melhor do que a da semana". Já havia, porém, quem fizesse as concessões indispensáveis ao clima tropical, não se limitando à troca semanal da camisa mas praticando-a também nas terças e quintas-feiras. Ou até quem, como certo converso, se desse ao luxo de envergar camisa limpa todos os dias.
O Brasil, como é sua vocação, ia baralhando as cartas. A mudança frequente da roupa servia assim não apenas a um fim higiênico como também a confundir a espionagem cristã-velha, donde terem sido possivelmente os conversos os lançadores da nova moda que, vantajosa em termos de adaptação ao meio físico, era-o também no propósito de dissimular práticas judaicas. Uma das filhas de Branca Dias explicará ao visitador inquisitorial vindo de Lisboa, com uma objetividade que não se coadunava com sua fama de lunática, a irrelevância da mudança de roupa aos sábados para a aferição da fé religiosa, pois "no Brasil é costume vestir muitas camisas lavadas por a terra ser muito quente". Seu depoimento sugere que tal hábito também se transmitira aos cristãos-velhos, tanto assim que, nos dias em que se hospedara no engenho dos Apipucos, vira a dona da casa "vestir cada semana três camisas lavadas porque no Brasil suam muito", donde "costuma vestir quem pode cada dia uma camisa lavada".
Evaldo Cabral de Mello

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