27 de outubro de 2016

Felicidade consciente


Sendo que tanto o profano que não pensa como o profano que pensa são infelizes, consciente ou inconscientemente, resolveram milhares de homens sinceros aplicar remédio radical à moléstia, fugindo do mundo, que eles consideram como a causa e a sede da infelicidade. Descobriram que a infelicidade provém do "desejo" de possuir o que não se tem, ou do "medo" de perder o que se possui; logicamente, a felicidade deve consistir no contrário, isto é, em não desejar possuir coisa alguma, ou, quando se possui algo, em renunciar a essa posse. Numa palavra: não possuir nada nem desejar possuir algo equivale a ser plenamente feliz, segundo a ideologia ascética. Destarte, nasceu a legião dos austeros desertores do mundo, surgiram os discípulos de Diógenes, a ala esquerda dos estoicos, os budistas, Santo Antão na sua caverna, São Simão Estilites na sua coluna, todos os ascetas e esqueletos ambulantes, todos os sórdidos maltrapilhos da renúncia radical e absoluta.
Entretanto, por maior que seja a sinceridade desses negadores do mundo, nenhum deles solveu o problema central da vida; todos eles se contentaram em contorná-lo e camuflá-lo habilmente. O homem pensante não se satisfaz com negações e fugidas; quer saber por que é que este mundo é tão mau e causa perene da humana infelicidade. Que é, afinal de contas, o mundo? Não é obra de Deus? Mas, se Deus é bom, integralmente bom, o Summum Bonum, como pode uma parte da sua obra ser má? Como pode o Bem Absoluto produzir algum mal, e tão grande mal? Como pode o homem tornar-se mau e profundamente infeliz, pelo fato de usar algo que o Deus infinitamente bom criou, sustenta e ama com perene amor? Por que não poderia o homem amar o que Deus ama? Por que devo eu desamar e odiar um objeto do amor divino?...
Todo desertor do mundo, por motivo ético, é, logicamente, um secreto negador do monoteísmo, e até ateísta, por mais que ele negue o fato. Admite tacitamente, com Zaratustra e outros dualistas, dois princípios creadores: Ahura Mazda, o deus da luz, e Ahriman, o deus das trevas. Atribui, implicitamente, a origem do mundo material ao poder de um anti-Deus, de um "satã" (que quer dizer "adversário").
Por isso, segundo essa filosofia dualista, o homem se aproxima de Deus na razão direta em que se afasta do mundo - e, inversamente, se afasta de Deus na proporção em que se aproxima do mundo.
Das duas, uma: 1) ou o mundo material não tem autor, é auto-existente e autônomo, o que quer dizer que o mundo é Deus, 2) ou tem autor mau, como o próprio mundo, e neste caso renunciamos ao monoteísmo, e, em última análise, ao próprio teísmo, professando ateísmo.
É, por conseguinte, inevitável admitir que o mundo material seja obra do mesmo Deus que criou o mundo espiritual, e que seja intrinsecamente bom, uma vez que de uma causa creadora integralmente boa não podia provir um efeito essencialmente mau.
A tal "maldade" atribuída ao mundo certamente não está nesse "objeto", mas, sim, no "sujeito", no homem, que do mundo bom faz uso mau. Ora, o "mau uso", ou abuso, não é neutralizado pelo "não-uso", mas, sim, pelo "bom uso". O mais fácil e mais comum desses três usos é o mau uso; mais difícil é o não-uso; dificílimo é o bom uso das coisas do mundo. O homem perfeito, o verdadeiro iniciado no reino de Deus, é mestre e consumado artista no uso correto do mundo de Deus, fazendo dele um meio e veículo para chegar ao Deus do mundo.
Na teologia ocidental tem prevalecido, e continua a prevalecer, geralmente, o dualismo filosófico-religioso; o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, essas três religiões mais praticadas no Oriente Próximo, são essencialmente dualistas - embora Jesus Cristo, o iniciador do cristianismo histórico, não possa ser invocado como dualista.
Não pode haver verdadeiro monoteísta que não seja monista, ou unista, quer dizer, que admita um único princípio absoluto, eterno, universal, causa creadora e força sustentadora de todas as coisas. Ora, sendo que o mesmo princípio creador que produziu o mundo espiritual produziu também o mundo material, segue-se que a matéria não é contrária ao espírito, e o homem, para ser espiritual, não necessita de desertar da matéria, mas usá-la em conformidade com a vontade de Deus. Segue-se, outrossim, que o homem pode encontrar a Deus dentro e por intermédio de cada uma de suas creaturas, assim como encontramos o foco solar seguindo a trajetória do raio solar que dele irradiou.
Entretanto, para evitarmos funestos mal entendidos, queremos frisar que a deserção do mundo material é, geralmente, para o escravo da matéria, o único meio para ingressar no mundo espiritual - e é fato inegável que a maior parte dos homens é escravizada pelas impressões materiais, necessitando, antes de tudo, de um movimento radical em sentido diametralmente oposto, isto é, a completa renúncia ao mundo material. Há pouquíssimos homens que, na verdade, possuem aquilo que dizem ou parecem possuir; muitos deles vivem em perpétua ilusão, cuidando possuir determinados bens externos, quando, de fato, são eles possuídos, como acontecia com aquele jovem rico do Evangelho, que, em face do convite de se despossuir daquilo que julgava possuir, mas de que era possuído e possesso, se retirou triste e pesaroso. Pudera, não! Se jamais alguém teve motivo para tristeza e pesar, foi esse jovem, por que não há coisa mais triste do que ser possuído daquilo que se devia possuir, e, ainda por cima, viver na ilusão de ser um possuidor. É horroroso não ter força para possuir suas posses com "pobreza pelo espírito" e "pureza de coração", isto é, com verdadeira liberdade interior.
É fácil ser possuído da matéria - milhares o são.
É difícil renunciar aos bens materiais - poucos o conseguem plenamente.
É dificílimo possuir coisas externas sem ser por elas possuído - pouquíssimos são os gênios do mundo espiritual que conhecem e praticam essa arte das artes.
É por isso que o divino Mestre, o grande vidente da força e fraqueza de cada homem, aconselhava geralmente a seus seguidores a completa renúncia como passo inicial rumo ao reino de Deus.
Ora, o triunfo máximo da verdadeira meditação, da genuína comunhão com Deus, está na consecução dessa perfeita liberdade interior, no meio do mundo exterior. É essa a "gloriosa liberdade dos filhos de Deus".
Mesmo humanamente falando, pode-se dizer que não existe sobre a face da terra maior satisfação, mais pura, mais profunda e intensa alegria, mais inefável beatitude do que essa certeza íntima da perfeita libertação de todas as peias e algemas do mundo circunjacente e do próprio Ego escravizante. O verdadeiro iniciado sabe que nada tem que temer de inimigo algum, porque, pelo conhecimento da verdade libertadora, derrotou definitivamente todos os seus inimigos. E essa experiência direta e imediata da soberania da alma, da onipotência do espírito, infunde ao iniciado tamanha tranquilidade interior, tão profunda paz d'alma, tão silenciosa delícia, tão indizível júbilo, que nada existe no mundo profano que de longe se quer comparar com essa felicidade. Os mais intensos prazeres dos profanos são insípidas e grosseiras vagens de porcos quando postos em paralelo com a dulcíssima iguaria que a perfeita libertação interior oferece aos verdadeiros filhos de Deus.
Se o profano, por um só instante, experimentasse o que é essa liberdade interior, sentir-se-ia tão profundamente infeliz no meio de todas as suas "felicidades" que procuraria por todos os meios adquirir essa "pérola preciosa", esse "tesouro oculto", ainda que, para consegui-lo, tivesse de sacrificar o mundo inteiro e viajar até os confins do universo. Entretanto, como o profano - precisamente por ser profano - nada sabe desse universo de divina felicidade, continua a viver na treva ou penumbra dos seus primitivos prazeres, que apelida sua "felicidade", chegando, por vezes, ao extremo de deplorar a sorte do homem espiritual, que, no entender dele, leva uma vida tristonha, monótona e descolorida.

Huberto Rohden

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