29 de outubro de 2016

Mangas Vermelhas


No Tempo das Formigas Voadoras (janeiro de 1863), Mangas Vermelhas estava acampado no Rio Mimbres. Por algum tempo, ele pensara como poderia conseguir a paz para os apaches antes de morrer. Lembrou-se do tratado que assinara em Santa Fé, em 1852. Nesse ano, os apaches e o povo dos Estados Unidos haviam combinado viver em paz perpétua e amizade. Houve alguns anos de paz e amizade, mas agora havia hostilidade e morte. Queria ver seu povo viver em paz novamente. Sabia que mesmo seus guerreiros mais bravos e hábeis, como Victorio e Gerônimo, não poderiam derrotar a grande força dos Estados Unidos. Talvez fosse um momento para um outro tratado com os americanos e seus soldados Casacos Azuis, que se haviam tornado tão numerosos quanto as formigas voadoras.
Certo dia, um mexicano aproximou-de do acampamento de Mangas Vermelhas com uma bandeira de trégua. Disse que havia alguns soldados próximos, querendo falar de paz. Para Mangas Vermelhas, sua vinda parecia providencial. Preferiria fazer conselho com um chefe estrelado, mas concordou em ir se encontrar com o pequeno "capitán" Edmond Shirland, dos Voluntários da Califórnia. Os guerreiros mimbreños aconselharam-no a não ir. Não se lembrava do que acontecera a Cochise quando fora ver os soldados em Apache Pass? Mangas Vermelhas não ligou para seus receios. Afinal, era um velho. Que mal poderiam os soldados fazer a um velho que só queria falar de paz? Os guerreiros insistiram que uma guarda o acompanhasse; escolheu 15 homens e partiram pela trilha rumo ao acampamento dos soldados.
Quando chegaram à vista do acampamento, Mangas Vermelhas e seu grupo esperaram o "capitán" mostrar-se. Um mineiro que falava espanhol veio para escoltar Mangas Vermelhas até o acampamento, mas os guardas apaches não deixaram seu chefe ir até que o capitão Shirland içasse uma bandeira branca. Assim que a bandeira apareceu, Mangas Vermelhas ordenou que seus guerreiros voltassem; ele iria sozinho. Estava protegido por uma trégua, perfeitamente seguro. Mangas Vermelhas cavalgou rumo ao acampamento, mas mal seus guerreiros saíram de vista, uma dúzia de soldados saiu do mato atrás dele, com os rifles apontados e prontos para disparar. Era um prisioneiro.
"Levamos logo Mangas Vermelhas a nosso acampamento no velho Fort McLean", disse Daniel Conner, um dos mineiros que estava viajando com os Voluntários da Califórnia, "e chegamos a tempo de ver o general West aparecer com seu comando. O general foi até onde Mangas Vermelhas estava preso para vê-lo e parecia um pigmeu perto do velho chefe, que era mais alto que todos em volta. Parecia preocupado e recusou-se a falar, evidentemente achando que cometera um grande erro em confiar nos caras-pálidas, nessa ocasião."
Dois soldados foram designados para guardar Mangas Vermelhas e, com a chegada da noite e do ar frio, fizeram uma fogueira de troncos para se aquecerem e ao prisioneiro. Um dos Voluntários da Califórnia, o soldado Clark Stocking, contou depois que ouviu o general Joseph West dar ordens aos guardas: "Quero-o morto ou vivo amanhã de manhã"; eles compreenderam "quero-o morto".
Devido à presença dos apaches de Mangas Vermelhas na área, sentinelas extras foram colocadas para patrulhar o acampamento depois da noite cair. Daniel Conner foi designado para a missão e, quando passeava por seu posto, pouco antes da meia-noite, percebeu que os soldados que guardavam Mangas Vermelhas estavam molestando tanto o velho chefe, que ele sacudia os pés sem parar sob sua manta. Curioso de saber o que os soldados estavam fazendo, Conner ficou fora da luz da fogueira e observou-os. Eles aqueciam suas baionetas no fogo e encostavam-nas nos pés e nas pernas de Mangas Vermelhas. Depois do chefe sofrer essa tortura várias vezes, levantou-se e "começou a censurá-los de forma vigorosa, dizendo às sentinelas, em espanhol, que não era criança para brincarem com ele. Mas suas censuras foram cortadas logo, pois mal começara suas exclamações, ambas as sentinelas prontamente tiraram seus mosquetes de balas cônicas, apontaram e disparam, quase ao mesmo tempo, contra seu corpo".
Quando Mangas Vermelhas caiu, os guardas esvaziaram seus revólveres no corpo do chefe. Um soldado pegou seu escalpo, outro cortou-lhe a cabeça e queimou a carne, de modo a poder vender o crânio a um frenologista do Leste. Jogaram o corpo decapitado numa vala. O relatório militar oficial afirmou que Mangas Vermelhas foi morto ao tentar a fuga.

Dee Brown

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