Fez Orellana ir a sua presença um índio aprisionado dias antes, pois já se julgava em condições de entendê-lo e fazer-se dele entender, graças a um vocabulário, elaborado não se sabe como. E as respostas dadas às indagações, que versaram, antes de tudo, segundo se poderia esperar, sobre as denodadas mulheres, foram naturalmente uma confirmação cabal de tudo quanto queriam acreditar o capitão e seus companheiros.
Souberam, assim, que as amazonas existiam realmente, e que sua terra ficava a quatro ou cinco jornadas da costa do rio, embora sujeitassem muitos povos vizinhos; o próprio chefe a quem obedecia o dito índio subordinava-se a elas. Ao perguntar-lhe Orellana se as casas onde moravam eram de palha, retrucou-lhe o informante, homem "de muita razão e muito bom", que eram de pedra e tinham portas. Disse mais, que suas povoações - setenta, ao menos, que tantas conhecia ele pelos nomes e em algumas tinha estado - se comunicavam entre si por meio de corredores com muros dos dois lados, que nesses muros havia portas, de espaço em espaço, onde se postavam guardas, com a incumbência de cobrar direito de quem entrasse.
À pergunta sobre se as mesmas amazonas eram casadas e tinham maridos, respondeu o índio negativamente, e acrescentou que elas participavam com homens em certas épocas. Esses homens, dissera-lhes, vão de uma província confinante com a sua, pertencente a um senhor poderoso, e são de cor branca, se bem que não tenham barbas. Quando apetece às amazonas comunicar-se com eles, fazem-nos ir às suas casas e deixam-nos lá ficar algum tempo. Não pôde apurar o capitão, porém, se os homens iam de sua livre vontade ou por guerra, mas conseguiu entender que os filhos machos, se os tinham, tratavam elas de matá-los ou enviá-los aos pais, só guardando consigo as mulheres, que criavam com grande regozijo. Sujeitavam-se todas ao governo de uma senhora principal, chamada Coroni ou Conhori.
Outra notícia que receberam do informante índio, e que muito os teria confortado, foi a da "grandíssima" riqueza em ouro que havia nas mesmas terras, tanto que de ouro era todo o serviço nas casas das mulheres principais. Na cidade onde tinha sua residência a Coroni existiam cinco "casas do sol", com seus ídolos de ouro e prata, representando figuras femininas. Essas casas eram revestidas, até o meio das paredes, de chapas de prata. De prata, e unidos às mesmas chapas, eram também os bancos onde se sentavam todas para as suas borracheiras. Os tetos das "casas do sol" ou adoratórios eram forrados de penas de papagaio multicoloridas.
As mulheres andavam ordinariamente vestidas de lã, que havia ali "ovelhas" do Peru, ou lhamas, em abundância, e tinham os seus vestidos recobertos de muito ouro. Segundo cuidaram entender ainda os espanhóis, havia também camelos, além de uns bichos corpulentos e munidos de tromba: estes não seriam porém numerosos.
Graças a tais informações, que lisonjeavam de uma parte a imaginação destemperada dos conquistadores, e de outra, a sua cobiça dos bens terrenos, achava-se firmado sobre fundamentos duradouros o mito das amazonas americanas. Em muitos pontos a descrição de Carvajal não é puramente imaginária, e coincide notavelmente, em verdade, com o que ele e seus companheiros teriam podido ver no Peru.
Assim é que na relação de Francisco de Xerez, impressa pela primeira vez em 1534, isto é, seis anos, ou pouco mais, antes da expedição de Orellana, mencionam-se expressamente as "casas do sol", existentes em toda aquela província e que o autor também denomina mesquitas. "Esta casa", escreve de uma delas, "dicen que es del sol, porque en cada pueblo hacen sus mesquitas al sol". Algumas eram de pedra, e pelo menos a do Cuzco velho aparece chapeada não só de prata como de ouro. Do largo emprego ali das penas de papagaio pode dar ideia a descrição, feita pelo cronista, da carruagem de Atahualpa: "una litiera aforrada de plumas de papagayo de muchos colores y guarnecida de oro y plata". Dos caminhos diz tamabém Xerez que eram cercados de taipa dos dois lados e em alguns lugares havia a casa do guarda, encarregado de arrecadar a portagem. Nenhum viajante pode entrar ou sair por outro caminho, levando carga, senão por aquele onde haja guarda, e isso sob pena de morte. Os serviços de prata e ouro seriam frequentes entre a gente principal, e um embaixador mandado por Atahualpa a Francisco Pizarro levava cinco ou seis vasos de ouro fino, onde bebeu e deu de beber aos espanhóis.
Sérgio Buarque de Holanda

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