Assim como se protegem contra a invasão de sua vida privada, com seus altos muros, seus ferrolhos e venezianas, seus porteiros resmungões, xingadores e desleixados, as pessoas também aprenderam a proteger-se contra o frio e o calor de um clima estimulante e vigoroso. Fortificaram-se. Proteção é a palavra-chave. Proteção e segurança. Para poderem apodrecer confortavelmente.
É possível que numa extensão de oito ou dez quarteirões haja uma aparência de alegria, mas depois volta a noite, a noite lúgubre, sórdida e preta como gordura gelada numa terrina de sopa. Quarteirões e quarteirões de prédios de apartamentos irregulares, com toda janela hermeticamente fechada, toda frente de loja fechada e trancada. Quilômetros e quilômetros de prisões de pedra sem o mais débil brilho de calor; os cães e os gatos estão todos dentro com os canários. As baratas e os percevejos também estão seguramente encarcerados. Se você não tem um centavo, por que não apanha simplesmente alguns jornais velhos e não faz uma cama na escadaria de uma catedral? As portas estão bem trancadas e não há correntes de vento para incomodá-lo. Melhor ainda é dormir diante das portas do metrô; lá terá companhia. Observe-os em uma noite chuvosa, lá deitados imóveis como colchões - homens, mulheres, piolhos, todos amontoados juntos e protegidos pelos jornais contra cuspidas e contra os vermes que caminham sem pernas. Observe-os sob as pontes ou sob os alpendres do mercado. Como parecem nojentos em comparação com as hortaliças limpas e brilhantes empilhadas como joias. Até mesmo as carcaças de cavalos, vacas e carneiros penduradas nos gordurosos ganchos parecem mais convidativas. Pelo menos, essas nós vamos comer amanhã e seus próprios intestinos servirão a um propósito. Mas esses imundos mendigos deitados na chuva, a que propósito servem? Que bem nos podem fazer? Eles nos fazem sangrar durante cinco minutos, mais nada.
Oh, sim, estes são pensamentos noturnos produzidos pela caminhada sob a chuva depois de dois mil anos de Cristianismo. Agora pelo menos os pássaros estão bem sustentados, assim como os gatos e cães. Toda vez que passo pela janela de um porteiro e recebo o pleno e gelado impacto de seu olhar, tenho desejo insano de esganar todos os pássaros de criação. No fundo de todo coração gelado há uma ou duas gotas de amor - apenas o suficiente para alimentar os pássaros.
É possível que numa extensão de oito ou dez quarteirões haja uma aparência de alegria, mas depois volta a noite, a noite lúgubre, sórdida e preta como gordura gelada numa terrina de sopa. Quarteirões e quarteirões de prédios de apartamentos irregulares, com toda janela hermeticamente fechada, toda frente de loja fechada e trancada. Quilômetros e quilômetros de prisões de pedra sem o mais débil brilho de calor; os cães e os gatos estão todos dentro com os canários. As baratas e os percevejos também estão seguramente encarcerados. Se você não tem um centavo, por que não apanha simplesmente alguns jornais velhos e não faz uma cama na escadaria de uma catedral? As portas estão bem trancadas e não há correntes de vento para incomodá-lo. Melhor ainda é dormir diante das portas do metrô; lá terá companhia. Observe-os em uma noite chuvosa, lá deitados imóveis como colchões - homens, mulheres, piolhos, todos amontoados juntos e protegidos pelos jornais contra cuspidas e contra os vermes que caminham sem pernas. Observe-os sob as pontes ou sob os alpendres do mercado. Como parecem nojentos em comparação com as hortaliças limpas e brilhantes empilhadas como joias. Até mesmo as carcaças de cavalos, vacas e carneiros penduradas nos gordurosos ganchos parecem mais convidativas. Pelo menos, essas nós vamos comer amanhã e seus próprios intestinos servirão a um propósito. Mas esses imundos mendigos deitados na chuva, a que propósito servem? Que bem nos podem fazer? Eles nos fazem sangrar durante cinco minutos, mais nada.
Oh, sim, estes são pensamentos noturnos produzidos pela caminhada sob a chuva depois de dois mil anos de Cristianismo. Agora pelo menos os pássaros estão bem sustentados, assim como os gatos e cães. Toda vez que passo pela janela de um porteiro e recebo o pleno e gelado impacto de seu olhar, tenho desejo insano de esganar todos os pássaros de criação. No fundo de todo coração gelado há uma ou duas gotas de amor - apenas o suficiente para alimentar os pássaros.
Henry Miller

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