Dom
Fabrizio conhecia desde sempre aquela sensação. Havia dezenas de anos
que ele sentia o fluido vital, a faculdade de existir, a vida em suma,
talvez até a vontade de viver, desprendendo-se de si, vagarosa mas
continuamente, como os pequenos grãos de areia que escorregam um a um,
sem pressa e sem detenção, pelo estreito orifício da ampulheta. Em
certos momentos de atividade intensa, de
grande atenção, esse sentido de contínuo abandono desaparecia para
reaparecer, imperturbável, nos fugazes momentos de silêncio ou de
introspecção: tal como um zumbido contínuo nos ouvidos ou como o bater
de uma pêndula que se impõem quando todo o resto se cala; e no entanto
percebemos que eles sempre ali estiveram, vigilantes, mesmo quando não
se ouviam.
Fora desses instantes, bastava-lhe sempre um mínimo de atenção para ouvir um sussurro daqueles grãos de areia que deslizavam levíssimos para longe, daqueles átomos de tempo que se lhe evadiam do espírito e para sempre o deixavam. A sensação, de resto, não andava, de princípio, ligada a qualquer mal-estar. Muito pelo contrário, esta imperceptível perda de vitalidade era a prova, a condição, por assim dizer, da sensação de viver; para ele, afeito a escutar espaços exteriores ilimitados, a explorar vastíssimos abismos interiores, aquilo estava bem longe de ser desagradável: era o sentimento de um esboroamento contínuo, miudinho, da personalidade, acompanhado, porém, da vaga esperança de que, algures, essa mesma personalidade se reconstruia (obrigado, Senhor) menos consciente porém mais ampla. Aqueles grãozinhos de areia não se perderiam; desapareciam apenas para se acumular, quem sabe onde, e cimentar uma arquitetura mais duradoura. Mas arquitetura, a bem dizer, não era a palavra exata: era pesada demais; e grãos de areia, de resto, também não. Eram antes como partículas de vapor de água que se evolassem dum pântano estreito, para formar no céu grandes nuvens ligeiras e livres. Às vezes surpreendia-se de que o reservatório vital pudesse conter o que quer que fosse após tantos anos de perdas. "Nem mesmo que fosse grande como uma pirâmide!" Outras, mais frequentes, orgulhava de ser quase o único a perceber essa fuga contínua, enquanto, à sua volta, ninguém parecia sentir o mesmo; e até encontrara nisso motivo para desprezar os outros, como o veterano despreza o recruta que alimenta a ilusão de que as balas que silvam à sua volta são moscardos inócuos. São coisas que, sabe-se lá bem por quê, não se confessam; deixa-se que sejam os outros a intuí-las, mas ninguém, à sua volta, as intuíra: nenhuma das filhas que sonhavam com um além-túmulo idêntico a esta vida, repleto de tudo, de magistrados, cozinheiros e conventos; nem Stella, que, apesar de devorada pela gangrena do diabetes, se aferrava mesquinhamente a esta vida de padecimentos. Talvez apenas Tancredi o tivesse compreendido, por um momento, quando lhe dissera com a sua ironia esquiva: "Tu, meu tio, cortejas a morte". Agora a corte chegava ao fim: a bela tinha dado o "sim", a fuga estava decidida, o compartimento do trem reservado.
Fora desses instantes, bastava-lhe sempre um mínimo de atenção para ouvir um sussurro daqueles grãos de areia que deslizavam levíssimos para longe, daqueles átomos de tempo que se lhe evadiam do espírito e para sempre o deixavam. A sensação, de resto, não andava, de princípio, ligada a qualquer mal-estar. Muito pelo contrário, esta imperceptível perda de vitalidade era a prova, a condição, por assim dizer, da sensação de viver; para ele, afeito a escutar espaços exteriores ilimitados, a explorar vastíssimos abismos interiores, aquilo estava bem longe de ser desagradável: era o sentimento de um esboroamento contínuo, miudinho, da personalidade, acompanhado, porém, da vaga esperança de que, algures, essa mesma personalidade se reconstruia (obrigado, Senhor) menos consciente porém mais ampla. Aqueles grãozinhos de areia não se perderiam; desapareciam apenas para se acumular, quem sabe onde, e cimentar uma arquitetura mais duradoura. Mas arquitetura, a bem dizer, não era a palavra exata: era pesada demais; e grãos de areia, de resto, também não. Eram antes como partículas de vapor de água que se evolassem dum pântano estreito, para formar no céu grandes nuvens ligeiras e livres. Às vezes surpreendia-se de que o reservatório vital pudesse conter o que quer que fosse após tantos anos de perdas. "Nem mesmo que fosse grande como uma pirâmide!" Outras, mais frequentes, orgulhava de ser quase o único a perceber essa fuga contínua, enquanto, à sua volta, ninguém parecia sentir o mesmo; e até encontrara nisso motivo para desprezar os outros, como o veterano despreza o recruta que alimenta a ilusão de que as balas que silvam à sua volta são moscardos inócuos. São coisas que, sabe-se lá bem por quê, não se confessam; deixa-se que sejam os outros a intuí-las, mas ninguém, à sua volta, as intuíra: nenhuma das filhas que sonhavam com um além-túmulo idêntico a esta vida, repleto de tudo, de magistrados, cozinheiros e conventos; nem Stella, que, apesar de devorada pela gangrena do diabetes, se aferrava mesquinhamente a esta vida de padecimentos. Talvez apenas Tancredi o tivesse compreendido, por um momento, quando lhe dissera com a sua ironia esquiva: "Tu, meu tio, cortejas a morte". Agora a corte chegava ao fim: a bela tinha dado o "sim", a fuga estava decidida, o compartimento do trem reservado.
Giuseppe Lampedusa

Nenhum comentário:
Postar um comentário