25 de outubro de 2016

Vodca e bombas


- Sabe – observou Tsiolkovski -, chegará um dia em que as pessoas deixarão de beber.
Semiradov o ameaçou gentilmente com o dedo, como se fosse uma criança:
- Ora vamos... Não me assuste! Essa eventualidade, de qualquer maneira, não ameaça a Rússia... Há duas coisas às quais o russo não pode renunciar: a vodca e o czar. Se derruba o czar, será o primeiro a sentir saudade dele...
- Até onde posso julgar – sorriu Tsiolkovski -, há muita gente neste país que não tem o czar na cabeça, da mesma maneira que não tem juízo na mesma, a começar pelo próprio czar, que não me parece muito forte para refletir. Fracassou na guerra com os japoneses e eis que, ao que tudo indica, prepara-se para cozinhar-nos uma guerra com os alemães. Ora, a guerra é a coisa mais absurda que pode existir na terra. E também, para expressar-me como você, a menos rentável...
- Nesse ponto, Constantin Eduardovitch – replicou vivamente Semiradov, - você comete um erro. Se a guerra só fosse não-rentável, pode estar certo de que ninguém se daria o trabalho de fazê-la. Pense no número de pessoas que, pelo mundo afora, fabricam pólvora, cartuchos, obuses, fuzis, canhões! Suponhamos que se elimine a guerra: que fazer de todas essas pessoas? Quantos russos ficarão sem trabalho da noite para o dia? E os proprietários dessas fábricas, acredita que sejam suficientemente estúpidos para parar a produção? Só uma coisa lhes interessa: ampliá-la, modernizá-la. Por exemplo, os tanques, uma arma que parece ter as mais amplas perspectivas. Utotchkin faz espetáculos de circo aéreo: entre os espectadores, há homens de negócios que só pensam numa coisa: fixar bombas na cauda desses aeroplanos. Será a mesma coisa com os foguetes. Tudo deve dar lucro. Os dois negócios mais rentáveis são a vodca e a guerra. Devo confessar, com toda a honestidade, que já dei uns primeiros passos muito promissores no Departamento da Guerra com relação ao fornecimento de munições no caso de haver guerra. E, apesar do alto grau de patriotismo desses senhores, uma pequena encomenda como essa dificilmente pode ser obtida sem que lhes molhemos um pouco a mão! Considere a raiz das coisas, Constantin Eduardovitch! Debaixo de todos os grandes desfraldamentos de estandartes, o que se esconde em realidade? O lucro...
- Mas – balbuciou Tsiolkoviski, esmagado pela lógica de seu interlocutor – há um outro tipo de lucro, o lucro moral! Será que esse outro tipo de lucro também tem seu lugar em caso de guerra?
- E como! – exclamou Semiradov, inatacável em sua demonstração. – Olhe o que ocorre quando não há guerra. Acusam os judeus de responsáveis por todos os males. Qualquer malandro que esteja impaciente por brigar, erguerá seu sabre para conduzir o bom povo ao extermínio e o bom povo terá a impressão de se sentir aliviado. Mas, pouco a pouco, até os mais obtusos compreendem que esses linchamentos não melhoram sua existência. Então, para que direção a mão armada com o sabre, novamente impaciente por lutar, se virará? Em direção ao poder. Mas o poder, que não é estúpido, tentará desviar o golpe com que se sente ameaçado e inventará um novo inimigo, cuja culpa será fácil de demonstrar: o alemão, o japonês... Ora, tanto no Japão como na Alemanha o poder também fabrica inimigos, para não ser derrubado; dá-lhes o nome de russos... Você bem vê, Eduardovitch, que a vantagem moral se une aqui com a vantagem material... O mecanismo nada tem de complicado...
- Um mecanismo repulsivo – respondeu Tsiolkovski enojado.
- E o homem não é um ser repulsivo? – sorriu Semiradov.
 
 Ievgueni Ievtuchenko

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