Voltando um rápido olhar para o Ocidente, onde uma teologia originária em grande parte do Levante foi enxertada na consciência da Europa, do mesmo modo que, no Oriente, a doutrina do Buda o foi na consciência do Extremo Oriente, descobrimos que a fusão não ocorreu sem rachaduras. De fato, a rachadura, visível desde o início, ampliou-se agora para tornar-se uma lacuna evidente. E já podemos perceber os prenúncios dessa brecha, ilustrados numa variante – mais uma vez – da imagem mitológica do primeiro ser que se tornou dois: a versão de O Banquete de Platão.
O leitor lembra-se com certeza da anedota alegórica, atribuída a Aristófanes, sobre os primeiros seres humanos que, no princípio, eram cada um do tamanho que corresponde a dois hoje. Eles tinham quatro mãos e pés, as costas e os lados formavam um círculo, uma cabeça com dois rostos, dois sexos e o restante de acordo com esse conjunto. E os deuses Zeus e Apolo, temerosos de sua força, dividiram-nos em dois, como maçãs partidas ao meio para compota, ou como se pode cortar um ovo cozido com um fio de cabelo. Mas as partes divididas, cada uma desejosa da outra, juntaram-se e abraçaram-se e teriam morrido de fome se os deuses não as tivessem afastado. A lição diz que “a natureza humana era originariamente uma e nós éramos um todo, e o desejo e a busca do todo é chamado amor. (...) E se formos amigos de Deus e estivermos em harmonia com ele, encontraremos nossos próprios verdadeiros amores, o que não é frequente acontecer neste mundo”. Ao passo que “se não somos obedientes aos deuses há o perigo de sermos divididos novamente e ficarmos condenados a andar à maneira das figuras esculpidas de perfil”.
Tal como na versão bíblica dessa imagem, o ser aqui dividido em dois não é a própria divindade suprema. Mais uma vez, de fato, estamos no Ocidente, onde Deus e homem estão separados e o problema, novamente, é de relação. Entretanto, deve-se observar uma série de contrastes entre as ênfases mitológicas grega e hebraica; pois “a teologia grega”, conforme observou F.M. Cornford, “não foi formulada por clérigos, nem mesmo por profetas, mas por artistas, poetas e filósofos. (...) Não havia uma classe sacerdotal protegendo de influências inovadoras uma tradição sacra entesourada em um livro sagrado. Não havia religiosos que pudessem, com êxito, a partir de uma fortaleza inexpugnável de autoridade, pretender ditar os termos da crença. A mitologia, em consequência, permanece fluida como a poesia, e os deuses não são literalmente concretizados, como Javé no paraíso, mas conhecidos exatamente como o que são: personificações trazidas à existência pela criativa imaginação humana. Eles são realidades, visto que representam forças tanto do macro quanto do microcosmos, o mundo exterior e o inferior. Entretanto, como são conhecidos apenas pelo seu reflexo na mente, compartilham dos defeitos daquele agente – e esse fato é perfeitamente conhecido pelos poetas gregos, como o é por todos os poetas (porém não, conforme parece, pelos sacerdotes e profetas). As lendas gregas sobre os deuses são jocosas, cômicas, evocam e expulsam as imagens ao mesmo tempo, receando-se que a mente, fixando-se nelas com profundo respeito, fracasse em ir além das imagens, rumo à realidade basicamente desconhecida e parcialmente intuída, e refletida por aquelas mesmas imagens.
Da versão do mito do um que se tornou dois apresentada em O Banquete, ficamos sabendo que os deuses tinham medo dos primeiros homens. Tão terrível era seu poder e tão grandiosos os pensamentos em seus corações, que atacaram os deuses, ousaram tomar o céu de assalto e teriam mesmo deitado suas mãos sobre os deuses. E tais deuses ficaram confusos; pois se aniquilassem os homens com raios, as oblações acabariam e os próprios deuses morreriam por falta de culto.
A lição irônica desse momento de indecisão celestial é a da dependência mútua entre Deus e o homem, como, respectivamente, o conhecido e o conhecedor do conhecido – uma relação na qual nem toda iniciativa e criatividade está, apenas, em uma das partes. Em todas as religiões do Levante essa relação da ideia de Deus com as necessidades, a capacidade e o culto ativo do adorador, parece nunca ter sido entendida, ou, se entendida, reconhecida. Pois lá, sempre se supôs que Deus, - concebido como Ahura Mazda, Javé, a Trindade ou Alá – nesse aspecto específico seria absoluto, e um único Deus certo para todos, enquanto entre os gregos, no período de seu apogeu, tal literalismo e impudência eram inconcebíveis.
Além do mais, com relação a qualquer conflito de valores que pudesse surgir entre as forças cósmicas desumanas simbolizadas pelas figuras dos deuses e os princípios supremos de humanidade representados por seus heróis, a lealdade e simpatia dos gregos estavam, sem dúvida alguma, do lado dos homens. É verdade que os melhores e mais ousados pensamentos do coração humano se contrapõem inevitavelmente à força cósmica, de maneira que o perigo de ele ser partido em dois está sempre presente. Por isso, a prudência deve ser observada, a fim de não sermos condenados a andar como as figuras esculpidas de perfil. Entretanto, jamais tomamos conhecimento de tal traição da causa humana por parte dos gregos, como é normal e mesmo necessária no Levante. As palavras do severamente açoitado Jó, “justo e sem culpa”, dirigidas a um deus que o tinha “consumido sem motivo”, podem ser representativas do ideal clerical devoto e submisso de todas as grandes religiões daquela área. “Vê, sou de pouca valia (...). Ponho minha mão sobre a boca (...). Sei que tu podes fazer todas as coisas (...). Menosprezo-me e arrependido faço penitência no pó e na cinza.” O Prometeu grego, em contrapartida, igualmente torturado por um deus que bem podia crivar a cabeça do Leviatã com arpões, apesar disso sustenta seu julgamento humano de ser responsável por seu tormento e grita quando recebe ordem de capitular: “Pouco me importa Zeus: Ele que faça o que bem entender”.
Por um lado, o poder do Deus Supremo, em contato com quem todas essas insignificantes categorias humanas se transformam em misericórdia, justiça, bondade e amor, e, por outro, o construtor titânico da Cidade dos Homens, que roubou o fogo dos deuses, corajoso e disposto a assumir a responsabilidade por suas próprias decisões. Esses são os dois grandes temas de discórdia do que se poderia denominar estrutura mitológica ortodoxa do Ocidente: os polos da experiência de um ego separado da natureza, amadurecendo valores próprios, que não são os do mundo dado, e, contudo, projetando sobre o universo uma noção de paternidade antropomórfica – como se ela mesma jamais tivesse possuído, ou pudesse chegar a possuir, em si ou na sua base metafísica, os valores, sensibilidade e inteligência, decência e nobreza de um homem!
O leitor lembra-se com certeza da anedota alegórica, atribuída a Aristófanes, sobre os primeiros seres humanos que, no princípio, eram cada um do tamanho que corresponde a dois hoje. Eles tinham quatro mãos e pés, as costas e os lados formavam um círculo, uma cabeça com dois rostos, dois sexos e o restante de acordo com esse conjunto. E os deuses Zeus e Apolo, temerosos de sua força, dividiram-nos em dois, como maçãs partidas ao meio para compota, ou como se pode cortar um ovo cozido com um fio de cabelo. Mas as partes divididas, cada uma desejosa da outra, juntaram-se e abraçaram-se e teriam morrido de fome se os deuses não as tivessem afastado. A lição diz que “a natureza humana era originariamente uma e nós éramos um todo, e o desejo e a busca do todo é chamado amor. (...) E se formos amigos de Deus e estivermos em harmonia com ele, encontraremos nossos próprios verdadeiros amores, o que não é frequente acontecer neste mundo”. Ao passo que “se não somos obedientes aos deuses há o perigo de sermos divididos novamente e ficarmos condenados a andar à maneira das figuras esculpidas de perfil”.
Tal como na versão bíblica dessa imagem, o ser aqui dividido em dois não é a própria divindade suprema. Mais uma vez, de fato, estamos no Ocidente, onde Deus e homem estão separados e o problema, novamente, é de relação. Entretanto, deve-se observar uma série de contrastes entre as ênfases mitológicas grega e hebraica; pois “a teologia grega”, conforme observou F.M. Cornford, “não foi formulada por clérigos, nem mesmo por profetas, mas por artistas, poetas e filósofos. (...) Não havia uma classe sacerdotal protegendo de influências inovadoras uma tradição sacra entesourada em um livro sagrado. Não havia religiosos que pudessem, com êxito, a partir de uma fortaleza inexpugnável de autoridade, pretender ditar os termos da crença. A mitologia, em consequência, permanece fluida como a poesia, e os deuses não são literalmente concretizados, como Javé no paraíso, mas conhecidos exatamente como o que são: personificações trazidas à existência pela criativa imaginação humana. Eles são realidades, visto que representam forças tanto do macro quanto do microcosmos, o mundo exterior e o inferior. Entretanto, como são conhecidos apenas pelo seu reflexo na mente, compartilham dos defeitos daquele agente – e esse fato é perfeitamente conhecido pelos poetas gregos, como o é por todos os poetas (porém não, conforme parece, pelos sacerdotes e profetas). As lendas gregas sobre os deuses são jocosas, cômicas, evocam e expulsam as imagens ao mesmo tempo, receando-se que a mente, fixando-se nelas com profundo respeito, fracasse em ir além das imagens, rumo à realidade basicamente desconhecida e parcialmente intuída, e refletida por aquelas mesmas imagens.
Da versão do mito do um que se tornou dois apresentada em O Banquete, ficamos sabendo que os deuses tinham medo dos primeiros homens. Tão terrível era seu poder e tão grandiosos os pensamentos em seus corações, que atacaram os deuses, ousaram tomar o céu de assalto e teriam mesmo deitado suas mãos sobre os deuses. E tais deuses ficaram confusos; pois se aniquilassem os homens com raios, as oblações acabariam e os próprios deuses morreriam por falta de culto.
A lição irônica desse momento de indecisão celestial é a da dependência mútua entre Deus e o homem, como, respectivamente, o conhecido e o conhecedor do conhecido – uma relação na qual nem toda iniciativa e criatividade está, apenas, em uma das partes. Em todas as religiões do Levante essa relação da ideia de Deus com as necessidades, a capacidade e o culto ativo do adorador, parece nunca ter sido entendida, ou, se entendida, reconhecida. Pois lá, sempre se supôs que Deus, - concebido como Ahura Mazda, Javé, a Trindade ou Alá – nesse aspecto específico seria absoluto, e um único Deus certo para todos, enquanto entre os gregos, no período de seu apogeu, tal literalismo e impudência eram inconcebíveis.
Além do mais, com relação a qualquer conflito de valores que pudesse surgir entre as forças cósmicas desumanas simbolizadas pelas figuras dos deuses e os princípios supremos de humanidade representados por seus heróis, a lealdade e simpatia dos gregos estavam, sem dúvida alguma, do lado dos homens. É verdade que os melhores e mais ousados pensamentos do coração humano se contrapõem inevitavelmente à força cósmica, de maneira que o perigo de ele ser partido em dois está sempre presente. Por isso, a prudência deve ser observada, a fim de não sermos condenados a andar como as figuras esculpidas de perfil. Entretanto, jamais tomamos conhecimento de tal traição da causa humana por parte dos gregos, como é normal e mesmo necessária no Levante. As palavras do severamente açoitado Jó, “justo e sem culpa”, dirigidas a um deus que o tinha “consumido sem motivo”, podem ser representativas do ideal clerical devoto e submisso de todas as grandes religiões daquela área. “Vê, sou de pouca valia (...). Ponho minha mão sobre a boca (...). Sei que tu podes fazer todas as coisas (...). Menosprezo-me e arrependido faço penitência no pó e na cinza.” O Prometeu grego, em contrapartida, igualmente torturado por um deus que bem podia crivar a cabeça do Leviatã com arpões, apesar disso sustenta seu julgamento humano de ser responsável por seu tormento e grita quando recebe ordem de capitular: “Pouco me importa Zeus: Ele que faça o que bem entender”.
Por um lado, o poder do Deus Supremo, em contato com quem todas essas insignificantes categorias humanas se transformam em misericórdia, justiça, bondade e amor, e, por outro, o construtor titânico da Cidade dos Homens, que roubou o fogo dos deuses, corajoso e disposto a assumir a responsabilidade por suas próprias decisões. Esses são os dois grandes temas de discórdia do que se poderia denominar estrutura mitológica ortodoxa do Ocidente: os polos da experiência de um ego separado da natureza, amadurecendo valores próprios, que não são os do mundo dado, e, contudo, projetando sobre o universo uma noção de paternidade antropomórfica – como se ela mesma jamais tivesse possuído, ou pudesse chegar a possuir, em si ou na sua base metafísica, os valores, sensibilidade e inteligência, decência e nobreza de um homem!
Joseph Campbell

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