26 de outubro de 2016

Estúpido cupido


Não é que desaprove o fato de um sentimento honesto e doce embelezar o laço conjugal e adoçar, por assim dizer, os deveres que esse laço impõe; mas não é a esse que compete formá-lo, nem à ilusão de um momento ditar a escolha de toda a nossa vida. Efetivamente, para escolher é preciso comparar, e como o fazer quando um só objeto nos ocupa, quando nem este podemos conhecer, mergulhados que estamos na embriaguez e na cegueira?
Encontrei, como podeis imaginar, muitas mulheres atingidas por esse mal perigoso; recebi as confidências de algumas; ao que dizem, não há uma só cujo amante não seja perfeito; mas essas perfeições quiméricas só existem em sua imaginação. Suas cabeças exaltadas sonham somente com encantos e virtudes; e com tais qualidades ornamentam à vontade a quem preferem; é o manto de um deus usado amiúde por um modelo abjeto. Mas, qualquer que seja o modelo, mal o vestem e já se prosternam para adorá-lo, iludidas por sua própria obra.
Que acontece neste caso, entre esposos que julgo honestos? Acontece que cada qual estuda o outro, observa-se em relação a ele, procura e reconhece logo o que é preciso ceder de seus gostos e vontades para a tranquilidade comum. Esses leves sacrifícios se fazem sem esforço porque são recíprocos e foram previstos. Logo fazem nascer uma benevolência mútua; e o hábito, que fortalece todas as inclinações que não destrói, traz, pouco a pouco, essa doce amizade, essa terna confiança, que, juntamente com a estima, formam, ao que me parece, a verdadeira, a sólida felicidade.
As ilusões do amor podem ser mais doces; mas quem não sabe que são também menos duráveis? E que perigos não acarreta o momento que as destrói? É então que os menores defeitos parecem chocantes e insuportáveis, pelo contraste que causam com a ideia de perfeição que nos havia seduzido. Cada um dos esposos acredita, entretanto, que só o outro mudou, e que ele vale sempre o que um momento de erro lhe fizera crer. O encanto que não sente mais, ele se espanta com não mais o provocar; fica humilhado com isso, a vaidade ferida azeda os espíritos, aumenta as culpas, produz mau humor, engendra o ódio; e frívolos prazeres são pagos com longos infortúnios.

Choderlos de Laclos

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