25 de outubro de 2016

Coca sem cola


Ao conquistar as sociedades andinas, os espanhóis constataram que elas cultivavam a coca e lhe atribuíam grandes poderes. A planta estava intimamente ligada aos costumes religiosos da população. Conforme os relatos transmitidos de geração a geração, Manco Kapac, o filho do deus Sol, dera a coca aos homens do altiplano. Suas folhas eram oferecidas aos deuses: enfiavam-nas na boca dos mortos para lhes garantir uma acolhida favorável no além. Se, fora do contexto religioso, o uso da coca foi durante muito tempo privilégio do soberano e da nobreza incas, na época da conquista seu consumo se havia generalizado entre a população.
Os espanhóis não acreditavam nas virtudes prodigiosas da planta; suspeitavam que era obra do diabo, devido ao papel que tinha nas cerimônias religiosas dos vencidos. Um conselho reunido em Lima chegou a proibir seu consumo, considerado um costume pagão e um pecado. Entretanto, os espanhóis mudaram de atitude ao perceber que os índios, quando privados da coca, não conseguiam executar o trabalho pesado que lhes era imposto nas minas. Dali por diante, passaram a distribuir folhas de coca aos trabalhadores três ou quatro vezes por dia, autorizando pausas breves para que as mascassem.
Até hoje a coca é importante para os indígenas, e ainda se encontram vestígios da veneração religiosa de que era objeto. Nos deslocamentos, o índio sempre leva um saquinho de folhas de coca (chamado chuspa), assim como uma pasta feita de cinzas vegetais (llucta). Junta um bocado de folhas a um pouco de cinza, a seguir mastiga demoradamente a mistura, segregando muita saliva. Quando engolido, o suco de coca combinado com a saliva produz, pouco a pouco, seu efeito: a atenuação momentânea das sensações de fome, frio, cansaço etc. Isso explica por que a coca é consumida em grande quantidade por todos os que têm uma vida difícil e repleta de coerções.
As folhas de coca também são úteis ao yatiri (aquele que sabe) na realização de grande parte de seus feitiços e adivinhações. Jogando a coca em um tecido preparado para isso, ele descobre ladrões e coisas ocultas. Quem quer saber das infidelidades, da conduta ou das intenções do parceiro consulta um feiticeiro que, depois de numerosas preces, lhe entrega algumas folhas de coca que devem entrar em contato com o corpo da pessoa cujos segredos se quer conhecer. Depois, devolvem-se as folhas ao feiticeiro, que, na presença do interessado, realiza certas cerimônias antes de jogá-las bruscamente no chão. A resposta depende da forma como elas caem. Para ter notícia de uma pessoa ausente, saber de sua saúde, de sua conduta ou de seus negócios, é preciso levar a roupa ou os objetos que ela costuma usar: estes são colocados no chão e neles se jogam folhas de coca. É preferível escolher roupa velha e que não tenha sido lavada recentemente, coisa que garante uma comunicação com os que a vestiram sem que eles se deem conta. Do mesmo modo, pode-se ver a imagem de um falecido em sua roupa. A coca mascada serve de amuleto e oferenda às divindades. Por fim, cuspindo o suco de coca na palma da mão, com os dedos esticados, e observando o modo como ele cai, é possível prever o futuro. Ela adquire um sabor amargo quando se prepara uma desgraça.
 
 Carlos Terrazas Orellana

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