29 de outubro de 2016

Ananás e jabuticaba


As sutilezas, às vezes bastante arrebicadas, de que se socorre Frei Antônio do Rosário para dar valor demonstrativo às suas preferências, não dissimulam facilmente estas, assim como em outros casos não consegue ele esconder a aversão que lhe produzem determinadas frutas. A propósito de uma delas, objeto de sua particular malevolência, chega a exclamar: "De Jabuticabas livre Deos aos Pastores do rebanho de Christo; são como uvas ferreais, tem raízes fora da terra". E a razão alegada dessa incompatibilidade vinha de que, sendo a cobiça raiz de todos os males, e sendo tão públicas nas jabuticabeiras e tão notadas as suas raízes, só poderia isso representar interesses demasiados e insaciáveis cobiças. Razão nitidamente barroca, no velhíssimo sentido, pelo capcioso do argumento, e também no outro, pela ideia implícita de que a dissimulação pode ser proveitosa, e porventura virtuosa.
Essa dissimulação assim valorizada, segundo o preceito de Frei Heitor Pinto, de que "há verdades que se não hão de dizer", e outras que, sendo mister dizê-las, se querem bem cosidas, "porque uma verdade crua não há estômago de ema que a esmoa", decorre, por sua vez, da soberana importância atribuída às formas mais ostensivas da piedade, oração vocal, devoções flagrantes, obras visíveis ou até vistosas, em vivo contraste com a religião "intimista" das seitas protestantes. Não é por acaso se em Frei Antônio, tão preso, como bom capucho, aos ideais da reforma católica, o pendor para o figurativo e o concreto se harmonizava bem com a devoção do rosário, que, renovada e revigorada sob Pio V (1569), ganharia singular relevo na era do barroco.
E não foi por outro motivo que pretendeu o engenhoso frade enlaçar nesse pomar simbólico à devoção do Santíssimo Rosário de Maria a fruta de sua devoção. Ainda que hoje nos deva parecer bem embotado, esse tipo de "agudeza" que lhe permitiu jungi-las uma à outra não era então muito malquisto ou tido como delituoso. Porque havia de ser o ananás, e não outra fruta do Brasil, a verdadeira metáfora do rosário? Já o dizia o nome, responde Frei Antônio, e aqui vem o jogo de palavras, isto é, a "agudeza": Ananás vale o mesmo que "Anna Nascitur". Nasceu de Sant'Ana a Mãe de Deus. Ana quer dizer graça, e cento e cinquenta vezes se nomeia no rosário a filha de Ana, cheia de graça. Se os nomes são sinais das naturezas que os têm, o ananás é o fruto que melhor significa a Senhora do Rosário, pois que contém a origem da sua, cheia de graça, de que está cheio o rosário. E se lhe objetassem que em "Anna nascitur" há mais letras do que em ananás, não teria dúvida em replicar, com argumentos, que isso não tem importância e nem tira a significação do mistério. Também o nome Pernambuco, por exemplo, provém de Paranabuca, pois assim diziam os índios, e só foi mudado pela corrupção do tempo.

Sérgio Buarque de Holanda

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