27 de outubro de 2016

A beleza da guerra


Olhe apenas para esse soldadinho da carroça de carga que conduz ao bebedouro uma troica de cavalos baios: tão calmo cantarola algo para si mesmo, que está claro que não se extraviará em meio a essa multidão diversa, que, aliás, para ele não existe; ele cumpre sua tarefa, qualquer que seja - dar de beber aos cavalos ou carregar as armas - com a mesma tranquilidade, segurança e indiferença que cumpriria se estivesse em Tula ou Saransk. Essa mesma expressão você pode ler no rosto do oficial de luvas irreprochavelmente brancas que passa à sua frente, e no rosto do marinheiro que fuma sentado à barricada, e no rosto dos soldados trabalhadores que esperam com macas nas escadarias da antiga assembleia, e no rosto dessa jovem moça que, temendo molhar seu vestido rosa, cruza a rua saltando de uma pedra a outra.
Sim! Você certamente ficará desapontado da primeira vez que chegar a Sebastopol. Em vão buscará nos rostos traços de agitação, de confusão ou mesmo de entusiasmo, de preparação para a morte, de decisão - não há nada disso: você vê pessoas comuns fazendo calmamente suas tarefas cotidianas; portanto, é possível que você se repreenda por sua excessiva euforia e venha a duvidar um pouco da justeza das suas ideias sobre o heroísmo dos defensores de Sebastopol, ideias que se formaram a partir de relatos e descrições, de aparências e sons que vieram do quartel de Siévernaia. Mas antes de duvidar, vá aos bastiões, observe os defensores de Sebastopol no próprio lugar da defesa ou, melhor, vá diretamente a esta casa em frente, a antiga assembleia de Sebastopol com suas escadarias onde se encontram soldados com macas - lá você verá os defensores de Sebastopol, lá você verá espetáculos terríveis e tristes, grandiosos e espirituosos, mas admiráveis, que elevam a alma.
Você entra no grande salão da Assembleia. Assim que abre a porta, é fulminado pela visão e pelo odor de quarenta ou cinquenta amputados e feridos graves, alguns sobre macas, a maior parte estendidos pelo chão. Não se renda à sensação que te paralisa à entrada da sala - essa horrível sensação. Siga adiante, não se envergonhe de ter vindo ver os sofredores, não se envergonhe de se aproximar e falar com eles: os infelizes amam ver rostos solidários, amam narrar seus sofrimentos e escutar palavras de afeto e interesse.
Agora, se você tem nervos fortes, atravesse a porta à esquerda: é naquele outro cômodo que se fazem os curativos e as operações. Você verá os médicos com os braços ensanguentados até os cotovelos, as fisionomias pálidas e sombrias, debruçados sobre uma maca, onde, com os olhos abertos e falando como em delírio palavras sem sentido, às vezes simples e tocantes, está estendido um ferido sob o efeito de clorofórmio. Os médicos estão ocupados com o ato repulsivo, mas benéfico da amputação. Você verá a faca curva e afiada penetrar na carne branca e saudável; verá com que grito terrível e dilacerado, com que imprecações o ferido súbito retoma a consciência; verá o oficial médico atirar a um canto o braço cortado; verá como, no mesmo cômodo, outro ferido sobre uma maca assiste a operação do companheiro, crispa-se e geme não tanto por dor física, quanto pelo sofrimento moral da espera - verá espetáculos terríveis que lhe revolverão a alma; verá a guerra não pela sua aparência regular, sedutora e brilhante, acompanhada por música e tambores, com bandeiras desfraldadas e generais que corcoveiam com seus cavalos, mas sim a guerra em sua verdadeira expressão - em sangue, em sofrimentos, em morte...
 
Liev Tolstoi

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