Na fazenda, eu me afastava dos outros e saía para caminhar
sossegadamente, com as mãos nos bolsos. Gostava de correr atrás das
galinhas, de acariciar os cavalos, de brincar com os cães. Enquanto meus
passos errantes me levavam para todos os lados, embriagava-me
lentamente com o cheiro da terra misturada com esterco e com a essência
de diversas folhas e flores. Descobria espécies
exóticas de larvas e insetos, aprendia as cores e os cantos dos
pássaros, as cores e tonalidades do céu. E, à medida em que perambulava,
sentia que ia encolhendo. Não, porém, como se eu fosse um intruso que
devesse passar despercebido pela natureza ao redor. Pelo contrário, eu
me sentia cada vez mais integrado à natureza, eu me sentia como só mais
uma peça diminuta de um mistério enorme e bonito, que eu ainda não sabia
chamar de Deus. Sentado em um monte de feno, ou pendurado na cerca do
estábulo, eu olhava o horizonte para além dos pastos. Olhava e entendia
que todas aquelas plantas e bichos nasciam e morriam, mas que a natureza
mesmo estava sempre ali, e bem viva. E quando meus olhos não viam mais
nada é que eu enxergava um pedacinho bem pequenininho do infinito, ele
também um mistério. E, enquanto eu contemplava o infinito, ele parecia
tomar meus olhos emprestados e olhava para dentro de mim. Creio que ele
também via um mistério, pois eu não tenho fundo.
André Faustino

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