Na época das migrações a passagem dos patos selvagens provoca
surpreendentes efeitos nas terras que eles atravessam. Os patos
domésticos, como que atraídos pelo grande voo triangular, ensaiam pulos
desajeitados. O apelo selvagem despertou neles não sei que vestígio
selvagem. Eis os patos das fazendas transformados por um minuto em aves
de arribação. Naquelas pequenas cabeças duras
em que circulavam apenas as imagens humildes de um brejo, de uns
vermes, de um galinheiro, desenrolam-se amplidões continentais, o gosto
dos ventos do largo, a geografia dos mares. O animal ignorava que seu
cérebro fosse bastante vasto para conter tanta maravilha. Mas agora está
batendo as asas, e despreza os vermes, despreza o milho, quer se
transformar em pato selvagem.
Mas revejo principalmente as minhas gazelas; criei gazelas em Juby. Nós todos lá criamos gazelas. Ficavam presas num cercado de arame, ao ar livre, porque as gazelas precisam da água corrente dos ventos e nada as supera em fragilidade. Prisioneiras desde pequeninas, elas se criam e comem na mão da gente. Deixam-se acariciar e metem o focinho úmido nas palmas de nossas mãos. Então pensamos que já estão domesticadas. Pensamos que já estão livres da tristeza misteriosa que consome em silêncio as gazelas e lhes dá a mais terna das mortes... Mas vem um dia em que vamos encontrá-las apoiando seus pequenos cornos contra a grade, na direção do deserto. Estão hipnotizadas. Nem sequer sabem que querem fugir de nós. Bebem o leite que lhes damos. Deixam-se acariciar e metem, ainda com mais ternura, os focinhos úmidos nas palmas de nossas mãos. Mas logo que as deixamos, depois de uma ligeira corrida que parece alegre, voltam para a cerca. Se não interviermos permanecem ali, nem ao menos tentando lutar contra a barreira, mas apenas apoiando nela seus pequenos cornos. E ficam assim, o pescoço curvado, até morrer. É a estação dos amores que chegou ou simplesmente a necessidade de galopar até perder o fôlego? Elas o ignoram. Seus olhos ainda estavam fechados quando foram presas. Ignoram tudo da liberdade na areia e do cheiro do macho. Mas nós somos mais inteligentes que elas. O que elas procuram - nós o sabemos - é a imensidão que as completará. Querem tornar-se gazelas e dançar a sua dança. A cento e trinta quilômetros por hora querem a fuga retilínea, cortada de desvios bruscos como se escapassem chamas da areia. Pouco importam os chacais, se a verdade das gazelas é gozar o medo. O medo que as torna maiores que si mesmas, que as obriga aos saltos mais altos! Que importa o leão, se a verdade das gazelas é serem abertas por uma patada, sob a luz do sol! Olhando-as, a gente imagina: elas sentem nostalgia. Nostalgia é o desejo não se sabe de que... Ele existe, o objeto desse desejo, mas não há palavras para dizê-lo...
E a nós, que falta?
Mas revejo principalmente as minhas gazelas; criei gazelas em Juby. Nós todos lá criamos gazelas. Ficavam presas num cercado de arame, ao ar livre, porque as gazelas precisam da água corrente dos ventos e nada as supera em fragilidade. Prisioneiras desde pequeninas, elas se criam e comem na mão da gente. Deixam-se acariciar e metem o focinho úmido nas palmas de nossas mãos. Então pensamos que já estão domesticadas. Pensamos que já estão livres da tristeza misteriosa que consome em silêncio as gazelas e lhes dá a mais terna das mortes... Mas vem um dia em que vamos encontrá-las apoiando seus pequenos cornos contra a grade, na direção do deserto. Estão hipnotizadas. Nem sequer sabem que querem fugir de nós. Bebem o leite que lhes damos. Deixam-se acariciar e metem, ainda com mais ternura, os focinhos úmidos nas palmas de nossas mãos. Mas logo que as deixamos, depois de uma ligeira corrida que parece alegre, voltam para a cerca. Se não interviermos permanecem ali, nem ao menos tentando lutar contra a barreira, mas apenas apoiando nela seus pequenos cornos. E ficam assim, o pescoço curvado, até morrer. É a estação dos amores que chegou ou simplesmente a necessidade de galopar até perder o fôlego? Elas o ignoram. Seus olhos ainda estavam fechados quando foram presas. Ignoram tudo da liberdade na areia e do cheiro do macho. Mas nós somos mais inteligentes que elas. O que elas procuram - nós o sabemos - é a imensidão que as completará. Querem tornar-se gazelas e dançar a sua dança. A cento e trinta quilômetros por hora querem a fuga retilínea, cortada de desvios bruscos como se escapassem chamas da areia. Pouco importam os chacais, se a verdade das gazelas é gozar o medo. O medo que as torna maiores que si mesmas, que as obriga aos saltos mais altos! Que importa o leão, se a verdade das gazelas é serem abertas por uma patada, sob a luz do sol! Olhando-as, a gente imagina: elas sentem nostalgia. Nostalgia é o desejo não se sabe de que... Ele existe, o objeto desse desejo, mas não há palavras para dizê-lo...
E a nós, que falta?
Antoine de Saint-Exupéry

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