Hoje, ao virmos de Boa Vista,
encontramos uma família de sertanejos, que havia trazido provisões para a
cidade há alguns dias, e voltava para o sertão, ou região selvagem do interior.
Os sertanejos constituem uma casta de homens rudes e ativos, na maior parte
agricultores. Trazem milho e cereais, toucinho e doces, às vezes couro e sebo.
Mas o açúcar, o algodão e o café, que formam os produtos principais de
Pernambuco, exigem terras mais quentes, mais ricas, junto à costa. O algodão,
contudo, é também trazido do sertão, mas é uma colheita precária, dependente
inteiramente da quantidade de chuva na estação, e às vezes não chove no sertão
durante dois anos. A família que encontramos formava um grupo muito pitoresco:
os homens vestidos de couro dos pés à cabeça. A jaqueta leve e as calças são
tão apertadas como as roupas dos mármores de Egina, e produzem mais ou menos o
mesmo efeito; o pequeno chapéu redondo tem a forma do petaso de Mercúrio. Os
sapatos e polainas da maior parte eram excelentemente adaptados para a defesa
das pernas e dos pés no cavalgar por entre as asperezas. O tom geral do
conjunto era um belo castanho queimado. Fiquei aborrecida porque a mulher do
grupo vestia uma roupa evidentemente à moda francesa. Estragava a unidade do
grupo. Ia montada por trás do homem principal, num dos pequenos e espertos
cavalos da terra. Vários cavalos de carga seguiam atrás, carregados de objetos
caseiros e outras coisas obtidas em troca de suas provisões; roupas, tanto de
lã como de algodão, louças de barro e outros artigos manufaturados,
especialmente facas, é o que eles geralmente trazem de volta; contudo vi
algumas alfaias, com pretensões a elegância entre as mercadorias da família que
encontrei. Depois dos cavalos veio um grupo de homens, alguns a pé,
acompanhando o passo dos animais, outros a cavalo e carregando as crianças. A
procissão terminava com um homem corpulento e de boa aparência, que passou a
fumar, e que se distinguia por um par de calças verdes de baeta.
Maria Graham

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