24 de novembro de 2016

É quando surge a mágoa nos relacionamentos que eu não sei o que fazer


Fico com a impressão de que não deveríamos nos preocupar com o que as outras pessoas nos fazem nos relacionamentos. Elas podem ter qualquer atitude, e desde que mantenhamos o nosso equilíbrio, nos centremos em nós mesmos e consideremos o que é importante, nada poderá nos afetar. Mas as outras pessoas realmente nos afetam. Às vezes os seus atos realmente nos magoam. É quando surge a mágoa nos relacionamentos que eu não sei o que fazer. É muito fácil dizer "deixe isso para lá, faça com que este fato não signifique coisa alguma para você". Mas eu realmente fico magoado com as palavras e os atos das outras pessoas nos relacionamentos.

Chegará o dia em que não ficará. Esse será o dia em que compreenderá - e tornará real - o verdadeiro significado dos relacionamentos; a verdadeira razão de sua existência.
É porque você se esqueceu do que os relacionamentos significam que reage assim. Mas não faz mal. Isso é parte do processo de crescimento, da evolução. É o trabalho da alma que você é capaz de fazer em um relacionamento, contudo isso envolve uma profunda compreensão, uma grande lembrança. Até você se lembrar disso - e então lembre-se também de como usar o relacionamento como um meio de criação do Eu - deve trabalhar no nível em que se encontra. O nível da compreensão, boa vontade e lembrança.
E portanto há iniciativas que você pode ter quando reage com sofrimento e magia ao que a outra pessoa está sendo, dizendo ou fazendo. A primeira é admitir honestamente para si mesmo e para ela como está se sentindo. Muitos de vocês têm medo de fazer isso, porque acham que os fará "parecer ruins". Em algum lugar em seu íntimo, você percebe que provavelmente é ridículo "sentir-se assim". Provavelmente é uma fraqueza sua. Você está "acima dessas coisas". Mas não pode evitar. Ainda se sente assim.
Há apenas uma coisa que você pode fazer: respeitar os seus sentimentos. Porque respeitá-los significa respeitar o seu Eu. E você deve amar ao próximo como ama a si mesmo. Como pode esperar compreender e respeitar os sentimentos do próximo se não respeita os seus?
A primeira pergunta em qualquer processo interativo com outra pessoa é: Quem Eu Sou agora, e Quem Desejo Ser, em relação a isso?
Frequentemente você só se lembra de Quem É e de Quem Deseja Ser quando experimenta alguns modos de ser. É por este motivo que é tão importante respeitar os seus sentimentos mais verdadeiros.
Se o seu primeiro sentimento é negativo, simplesmente tê-lo é com frequência tudo que é preciso para evitá-lo. É quando você tem aversão, raiva, revolta e vontade de querer "dar o troco" que pode repudiar esses primeiros sentimentos por "não corresponderem a Quem Deseja Ser".
O Mestre é aquele que já passou por tantas experiências desse tipo que sabe antecipadamente quais serão as suas escolhas finais. Não precisa "experimentar" coisa alguma. Já viu esse filme e não gostou. E como a vida de um Mestre é dedicada à constante realização do Eu como o conhece, nunca teria esses sentimentos. É por esse motivo que os Mestres mantêm a calma diante do que os outros poderiam chamar de calamidade. O Mestre bendiz a calamidade, porque sabe que das sementes do desastre (e de todas as experiências) vem o crescimento do Eu. E o segundo objetivo da vida do Mestre é sempre o crescimento. Porque quando uma pessoa se realiza plenamente, não lhe resta outra alternativa além de ser mais ainda ela mesma.
É nesse estágio que a pessoa passa do trabalho da alma para o trabalho de Deus, porque é isso que Eu sou capaz de fazer!
Eu presumirei pelos objetivos desta discussão que você ainda está realizando o trabalho da alma, tentando tornar “real” Quem Realmente É. A vida lhe dará (Eu lhe darei) muitas oportunidades de criar-se (lembre-se de que a vida não é um processo de descoberta, mas de criação).
Você pode criar repetidamente Quem É. De fato, o faz todos os dias. Contudo, do modo como a situação está agora, nem sempre tem a mesma reação. Se passar pela mesma experiência externa, um dia você pode escolher ser paciente, amoroso e gentil, e no outro ficar mal-humorado e triste.
O Mestre é aquele que sempre tem a mesma reação - e essa reação é sempre a melhor escolha.
Nisso o Mestre é totalmente previsível. O discípulo, ao contrário, é totalmente imprevisível. Pode-se dizer como alguém está se saindo no caminho para a mestria observando o quão previsivelmente faz a melhor escolha reagindo a qualquer situação.
É claro que isso leva à pergunta: Qual é a melhor escolha?
Eis uma pergunta que foi feita por filósofos e teólogos desde o início dos tempos. Se você deseja realmente saber a resposta, já está a caminho da mestria. Porque ainda é verdade que a maioria das pessoas continua a se fazer outra pergunta. Não “qual é a melhor escolha?", mas "qual é a mais vantajosa?" ou "como posso perder menos?”.
Quando se vive tendo um ponto de vista de controle de dano ou vantagem máxima, o verdadeiro benefício da vida é perdido. A oportunidade e a chance são perdidas. Porque uma vida assim é uma vida com medo - e essa vida conta uma mentira a seu respeito.
Porque você não é medo, é amor. Amor que não precisa de proteção, que não pode ser perdido. Contudo, nunca saberá disso experimentalmente se responder sempre à segunda pergunta e não à primeira. Porque somente uma pessoa que pensa que há algo a ganhar ou perder faz a segunda pergunta. E somente uma pessoa que vê a vida de um modo diferente, o Eu como um ser mais elevado que entende que o teste não é ganhar ou perder, mas apenas amar ou apaixonar-se - faz a primeira.
Quem faz a segunda pergunta diz: "Eu sou o meu corpo." Quem faz a primeira diz: "Eu sou a minha alma."
Sim, deixe que todos que têm ouvidos ouçam. Porque Eu lhe digo que em todos os relacionamentos humanos, no momento crítico há apenas uma pergunta: O que o amor faria agora?
Nenhuma outra pergunta é significativa ou tem importância para a sua alma.
Agora chegamos a um ponto bastante delicado de interpretação, porque esse princípio de ação patrocinada pelo amor tem sido muito mal compreendido - e é isso que tem levado aos ressentimentos e rancores da vida - que, por sua vez, fizeram tantos se desviarem do caminho.
Durante séculos vocês aprenderam que a ação patrocinada pelo amor surge da escolha de ser, fazer e ter o que é melhor para a outra pessoa.
Contudo, Eu lhe digo que a melhor escolha é aquela que é melhor para você.
Como ocorre com todas as verdades espirituais profundas, essa afirmação está sujeita a ser mal interpretada. O mistério é em parte esclarecido no momento em que você decide qual é o maior "bem" que pode fazer a si mesmo. E quando a melhor escolha é feita, o mistério desaparece, o círculo se completa e o maior bem para si mesmo torna-se o maior bem para a outra pessoa.
Pode ser preciso muito tempo para entender essa verdade - e ainda mais para colocá-la em prática - porque ela está ligada a outra ainda maior: o que você faz por si mesmo, faz pela outra pessoa. O que faz por ela, faz por si mesmo.
Isso ocorre porque vocês são um só.
E porque...
Não há nada além de Você.
Todos os Mestres que pisaram em seu planeta ensinaram isso. ("Em verdade Eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim mesmo que o fizestes.") Contudo, para a maioria das pessoas isso continuou a ser apenas uma grande verdade esotérica, com pouca aplicação na prática. De fato, é a verdade "esotérica" mais aplicável na prática de todos os tempos.
Nos relacionamentos, é importante lembrar dessa verdade, porque sem ela os relacionamentos serão muito difíceis.
Vamos voltar às aplicações práticas desse conhecimento e nos afastar por enquanto de seu aspecto puramente espiritual e esotérico.
Então frequentemente, de acordo com as antigas interpretações, as pessoas - bem-intencionadas, muitas das quais bastante religiosas - fizeram o que pensaram que seria melhor para as outras pessoas em seus relacionamentos. Infelizmente, tudo que isso produziu em muitos casos (na maioria deles) foram abusos e problemas constantes no relacionamento.
Em última análise, a pessoa que tenta "fazer o que é certo" para a outra - estar pronta para perdoar, mostrar compaixão e deixar sempre para trás certos problemas e comportamentos passados torna-se rancorosa e desconfiada, até mesmo de Deus. Como um Deus justo exige esse sofrimento, essa tristeza e esse sacrifício intermináveis mesmo em nome do amor?
A resposta é: Deus não faz isso. Ele só pede que você inclua a si mesmo entre aqueles que ama.
Deus vai mais longe. Sugere, recomenda, que se coloque em primeiro lugar.
Eu o recomendo sabendo muito bem que alguns de vocês considerarão isso uma blasfêmia, e portanto não a Minha palavra, e que outros farão o que seria ainda pior: aceitarão isso como a Minha palavra e a interpretarão errado ou distorcerão para servir aos seus próprios objetivos - para justificar atos terríveis.
Eu lhe digo que colocar-se em primeiro lugar no sentido mais elevado nunca leva a um ato terrível.
Portanto, se você se viu praticando um ato terrível como um resultado de ter feito o que era melhor para si próprio, a confusão não foi causada por ter se colocado em primeiro lugar, mas por ter compreendido mal o que era melhor para você.
É claro que determinar o que é melhor para você também exigirá que você determine o que está tentando fazer. Esse é um passo importante que muitas pessoas ignoram. O que pretende fazer? Qual é o seu objetivo na vida? Sem respostas para essas perguntas, a questão do que é "melhor" em uma determinada circunstância continuará a ser um mistério.
Como uma questão prática - deixando novamente de lado o aspecto esotérico -, se pensar no que é melhor para você nas situações em que está sofrendo abusos, no mínimo o que fará é pôr fim ao abuso. E isso será bom para você e para aquele que comete os abusos. Porque até mesmo quem abusa é prejudicado quando lhe é permitido continuar a abusar de você.
Isso não é bom para o abusador, mas sim prejudicial. Porque se ele achar que o seu abuso é aceitável, o que terá aprendido? Mas se ele ver que o seu abuso não será mais aceito, o que lhe terá sido permitido descobrir?
Por isso, tratar as outras pessoas com amor não significa necessariamente deixá-las fazer o que querem.
Os pais aprendem isso desde cedo com os filhos. Os adultos não aprendem tão rápido com outros adultos, como tampouco o aprendem as nações com outras nações.
Contudo, os déspotas não devem fazer o que bem entendem, é preciso pôr fim ao seu despotismo. O amor pelo Eu, e pelo déspota, exige isso.
Essa é a resposta para a sua pergunta: "Se o amor é tudo que existe, como o homem pode justificar a guerra?"
Às vezes o homem tem de ir para a guerra para fazer a afirmação mais solene de quem realmente é: um homem que detesta a guerra.
Há ocasiões em que você pode ter de renunciar a Quem É para ser Quem É.
Há Mestres que ensinaram: você só pode ter tudo quando deseja renunciar a tudo.
Portanto, para "ter" a si mesmo como um homem de paz, você pode ter de renunciar à ideia de si mesmo como um homem que nunca vai à guerra. A história tem exigido dos homens esse tipo de decisão.
O mesmo é verdadeiro na maioria dos relacionamentos pessoais. A vida pode exigir mais de uma vez que você prove Quem É demonstrando um aspecto de Quem Não É.
Não é muito difícil entender isso se você já viveu o bastante, embora para os jovens idealistas possa parecer a maior das contradições. Em uma retrospecção mais madura, parece uma dicotomia divina.
Nos relacionamentos, isso não significa que se você está sendo magoado, tem de "dar o troco". (O mesmo pode ser dito nos relacionamentos entre nações.) Simplesmente significa que permitir que a outra pessoa esteja sempre maltratando-o pode não ser a melhor opção a fazer - por si mesmo ou por ela.
Isso deveria desmentir algumas teorias pacifistas que afirmam que o amor mais sublime não requer uma reação enérgica ao mal.
A discussão aqui torna-se novamente esotérica, porque nenhum estudo sério dessa afirmação pode ignorar a palavra "mal", e os julgamentos de valor em que implica. Na verdade, o mal não existe, o que existe são apenas fenômenos objetivos e experiências. Contudo, o seu próprio objetivo na vida exige que você escolha de um conjunto infinito de fenômenos alguns que considera maus - porque se não o fizer, não poderá considerar a si mesmo ou a nada bom - e portanto não poderá conhecer, ou criar, o seu Eu.
Você se define através do que considera mau, e bom.
Portanto, o maior mal seria não considerar nada mau.
Nessa vida, você existe no mundo relativo, onde uma coisa só pode existir na medida em que se relaciona com outra. É ao mesmo tempo a função e o objetivo do relacionamento fornecer um campo de experiência dentro do qual você se encontra, se define e - se escolher - constantemente recria Quem É.
Escolher ser como Deus não significa escolher ser um mártir. E certamente não significa escolher ser uma vítima.
Em seu caminho para a mestria - quando todas as possibilidades de ofensas, danos e perdas são eliminadas - seria bom reconhecer as ofensas, os danos e as perdas como parte da sua experiência, e decidir Quem Você É em relação a tudo isso.
Contudo, em algumas ocasiões as coisas que as pessoas pensam, dizem ou fazem irão magoá-lo - até não o magoarem mais. O que o levará mais rapidamente de um ponto ao outro é a total sinceridade - o desejo de reconhecer e afirmar exatamente como se sente em relação a algo. Diga a sua verdade - gentil, mas totalmente. Viva-a gentil, mas totalmente. Mude a sua verdade de maneira fácil e rápida quando a sua experiência lhe proporcionar uma nova lucidez.
Ninguém em seu juízo perfeito, muito menos Deus, lhe diria, quando você está magoado em um relacionamento, "deixe isso para lá, faça com que não tenha significado algum para você". Se está magoado, é muito tarde para fazer com que não signifique coisa alguma. Sua tarefa agora é decidir o que realmente significa - e demonstrá-lo. Porque fazendo isso, você escolhe e se torna Quem Tenta Ser.
 
Neale Donald Walsch

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