Quando as águas estão baixas, os nativos daquelas terras vêm viver junto à ribeira, trazendo suas mulheres e filhos para gozar dos prazeres da pescaria. Durante esse período levam uma vida muito alegre, cantando e dançando, porque a comida é abundante e o lugar muito agradável. Quando as águas começam a subir, que é por janeiro, voltam para as partes mais altas e seguras. As águas chegam a subir até seis braças por cima das barrancas e se estendem por toda a planície terra adentro, parecendo um mar. Isso acontece religiosamente todos os anos, cobrindo todas as árvores e vegetações da região. Dá-se isso quando o sol parte do trópico de lá e vem para o trópico de cá, que está sobre a boca do rio do Ouro. Os nativos têm umas canoas aparelhadas para essa época. São muito grandes e no meio delas fazem um fogão de barro. Depois de feito o fogão, o índio se mete ali com sua mulher e filhos, podendo, com a cheia, ir para qualquer parte. O fogão serve para cozinhar os alimentos e para aquecê-los. Assim passam quatro meses do ano, que é o período em que dura a cheia. Porém, mesmo com a cheia eles saltam à terra nas partes mais altas para caçar antas e veados que fogem da água. Essa caçada é muito rápida, pois logo voltam para suas canoas, onde ficam até que as barrancas estejam descobertas. Quando as águas estão baixando é impressionante de se ver a enorme quantidade de peixes que vão ficando presos na parte seca. Quando isso acontece, que é por volta de março e abril, toda aquela terra fica cheirando muito mal.
Álvar Nuñes Cabeza de Vaca

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